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Estaremos a intervir atempadamente na reabilitação das sequelas de AVC? E com que resultados?

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A questão da importância da reabilitação nas pessoas que tiveram um AVC é aqui defendida pela equipa do Serviço de Reabilitação do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, dirigido por Jorge Jacinto, médico especialista de Medicina Física e Reabilitação e membro da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, num artigo de opinião que assinala o Dia Mundial do Cérebro.

Reabilitação
Jorge Jacinto, médico especialista de Medicina Física e Reabilitação e membro da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral

“O AVC é uma das principais causas de morte e a principal causa de incapacidade adquirida na idade adulta, mundialmente. Com o aumento verificado na longevidade das populações, os sobreviventes de AVC que ficam com sequelas limitantes da sua funcionalidade e qualidade de vida vivem muitos anos com as referidas sequelas.

Assim, torna-se cada vez mais importante proporcionar-lhes a melhor reabilitação possível em tempo útil, isto é, quando as lesões que sofreram ainda estão em processo recuperação neurológica, de forma a que, através de uma intervenção multimodal e multiprofissional em Medicina Física e de Reabilitação, possamos potenciar a reabilitação da funcionalidade e prevenir a adoção de estratégias mal adaptativas ou o aparecimento de complicações secundárias que venham agravar o prognóstico funcional e mesmo vital.

Para que os sobreviventes de AVC cheguem de forma atempada aos serviços dos Centros de Reabilitação, para serem integrados em programas multimodais, multiprofissionais e intensivos, a referenciação dos mesmos deve ser célere e criteriosa.

Por outro lado, às equipas destes serviços compete trabalhar de forma concertada e focada nos objetivos de cada utente e seus próximos, procurando, assim, potenciar as melhorias funcionais e as adaptações sociais e ambientais necessárias à redução do grau de limitação funcional e social, para possibilitar o retorno do sobrevivente de AVC ao seu domicílio e ao seu contexto social o mais precocemente e com menor número de alterações possíveis.

Somos o serviço de reabilitação que trata o maior número de doentes com sequelas de AVC para reabilitação em regime de internamento a nível nacional (Serviço de Reabilitação de Adultos 3, do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão). Na senda da melhoria contínua dos serviços prestados e dos resultados obtidos com o nosso trabalho, realizámos um trabalho científico cujo resumo já partilhámos no Congresso Mediterrânico de MFR de 2023, em Roma, mas voltaremos a partilhar em mais detalhe no próximo Congresso da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e Reabilitação, em setembro próximo.

O estudo, intitulado “Quando chegam e quanto melhoram os doentes com sequelas de AVC num Centro de Reabilitação?”, pretendeu analisar os doentes internados por sequelas de AVC no Serviço de Reabilitação de Adultos 3 do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (SRA3-CMRA) durante o ano de 2022.

Os principais objetivos foram: investigar as características sociodemográficas dos pacientes, determinar a proporção de casos de VC isquémico e hemorrágico, analisar os tempos de espera e de internamento, bem como os ganhos em funcionalidade e o destino dos após a alta.

Da base de dados de todos os doentes internados no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA) ao longo de 2022, foram analisados os adultos internados no SRA3 por sequelas de AVC. O serviço internou 333 doentes com sequelas de AVC em 2022: 63% masculinos, em média com 60,6 anos de idade; 32% AVC hemorrágicos e 68% AVC isquémicos.

À admissão, no primeiro internamento, a Medida de Independência Funcional (MIF) foi, em média, 72.8/126. O número de dias desde o AVC até à primeira consulta no SRA3-CMRA para primeiro internamento foi de 50 dias e desde a primeira consulta até à admissão no internamento foi, em média, 34 dias, ou seja, em média os utentes chegaram ao internamento de MFR 84 dias após o evento cerebral.

O tempo médio de internamento no SRA3-CMRA foi de 64 dias e a evolução da funcionalidade desde a admissão até à alta, medida pela MIF, foi, em média, de 15 pontos. Após a alta hospitalar, 87% dos pacientes regressaram ao domicílio (22% com apoio domiciliário).

Os resultados descritos não são ideais no respeitante aos tempos de espera, mas podemos verificar que, em 2022, o SRA3-CMRA admitiu os doentes para primeiro internamento antes dos três meses (ainda na janela post-aguda) após o evento e a evolução da MIF foi de 1 ponto a cada 5 dias, demonstrando eficácia do Programa de Reabilitação intensivo realizado em regime de internamento.

Apenas 1/5 dos casos corresponderam a reinternamentos e nesses casos verificou-se uma melhoria de 11 pontos na MIF (1 ponto a cada 7 dias) , o que revela uma seleção criteriosa de doentes, com necessidade/potencial para melhorar mais num segundo episódio de internamento.

O facto de estes reinternamentos terem ocorrido em média 14 meses depois do AVC veio demonstrar que, em casos selecionados, podemos continuar a obter melhoria funcional com programas de reabilitação após a marca dos 12 meses.

A grande maioria dos pacientes (87%) teve alta para o domicílio após a alta, revelando que os resultados funcionais conseguidos permitiram em geral a integração no contexto prévio e que incluir nas equipas de reabilitação os técnicos de serviço social é relevante.

Continuaremos a trabalhar com todos os parceiros envolvidos na referenciação atempada e, internamente, na agilização dos processos administrativos e dos programas de reabilitação.

A nossa missão é a de otimizar os resultados logrados pelos nossos utentes e diminuir os impactos negativos do AVC nas suas vidas, nas dos seus próximos e na sociedade em geral.”

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