As vacinas são alvo de mais ensaios clínicos do que qualquer outro tipo de medicamento, mas têm recebido relativamente pouco apoio da indústria farmacêutica nas últimas duas décadas, revela um novo estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

 

Ao longo de duas décadas, de janeiro de 2000 a janeiro de 2020, os esforços do setor privado para o desenvolvimento de vacinas conseguiram levar um medicamento ao mercado em 39,6% das vezes, verificaram os investigadores. Por outro lado, os programas para desenvolver terapêuticas anti-infecciosas, ou seja, medicamentos que diminuem a gravidade da doença, incluindo antibióticos, tiveram sucesso em 16,3% das vezes.

O que significa que “a probabilidade de sucesso das vacinas é confiavelmente mais alta do que a verificada em qualquer outra área de desenvolvimento de medicamentos”, refere o economista Andrew Lo, coautor do estudo.

À primeira vista, isto pode parecer bom para as perspetivas de desenvolvimento de medicamentos durante a pandemia de Covid-19, uma vez que mais de 100 projetos em todo o mundo têm como objetivo encontrar uma vacina para o vírus.

Mas os cientistas podem estar a correr para compensar o tempo perdido, de certa forma porque, como o estudo também mostra, o desenvolvimento de vacinas para algumas das doenças mais perigosas do mundo diminuiu nas últimas décadas.

Por exemplo: dos quase 10.000 projetos de desenvolvimento de medicamentos avaliados pelo estudo, apenas uma mão cheia abordou os contágios altamente problemáticos dos últimos 20 anos.

“Se observarmos as doenças mais significativas fora da Covid-19, como MERS, SARS, Ebola e Zika, para essas doenças, houve um total de apenas 45 programas não vacinais iniciados nas últimas duas décadas”, observa Andrew Lo.

“E houve apenas uma vacina aprovada, para o Ebola, em dezembro de 2019. Isso é preocupante, porque sabemos que essas doenças são ameaças reais e, no entanto, tiveram relativamente pouca atenção.”

Centros de investigação com menos capacidade

Para realizar o estudo, os investigadores examinaram as informações recolhidas pela Citeline, uma empresa que mantém bancos de dados da indústria farmacêutica sobre desenvolvimento de medicamentos e ensaios clínicos.

O estudo reviu 2.544 programas de vacinas e 6.829 programas de desenvolvimento de não vacinas. Após uma fase inicial de investigação e desenvolvimento pré-clínico, um candidato a medicamentos costuma passar por três fases formais de teste em seres humanos, a primeira geralmente destinada a examinar a sua segurança e as seguintes mais focadas na eficácia.

Entre outras descobertas, identificaram-se taxas mais baixas de sucesso para programas de desenvolvimento de medicamentos fora do setor privado, como os liderados por investigadores em hospitais ou organizações académicas.

Estes esforços tiveram sucesso em 6,8% das vezes no caso das vacinas e 8,2% para outras terapêuticas, algo que Andrew Lo atribui à escala menor de muitos dos projetos.

“Os centros médicos académicos não têm os recursos que as grandes empresas farmacêuticas possuem.”

À espera de uma vacina para o VIH

Andrew Lo realça também que as taxas de sucesso relativamente baixas para terapêuticas não vacinais, incluindo antibióticos, “saltaram à vista”. “Acho que as pessoas não percebem o quão importante são os antibióticos e como são poucos os que temos atualmente no nosso arsenal médico”, acrescenta. “Apenas não estamos a investir recursos suficientes neste campo crítico.”

Os investigadores encontraram também resultados bastante variados por tipos de doenças. Das 27 categorias de doenças para as quais ocorreram esforços de desenvolvimento de vacinas, apenas 12 viram medicamentos receber aprovação do governo.

O tipo de doença com maior taxa de sucesso, entre aqueles com mais de um candidato a medicamento, foi o rotavírus: nesta categoria, 78,7% dos programas foram bem-sucedidos.

Por outro lado, e além de MERS, SARS e zika, o VIH é um caso com uma notável falta de vacina bem-sucedida, depois de centenas de projetos terem tentando desenvolver uma.

Andrew Lo observa que apenas quatro das 20 principais empresas farmacêuticas investem pesadamente no desenvolvimento de vacinas, uma queda considerável em relação a duas décadas atrás, e isto apesar do facto de as vacinas terem facilmente as melhores probabilidades de se tornarem medicamentos bem-sucedidos.

“Isso diz-nos que a economia das vacinas deve ser realmente desafiadora, se cada vez menos grandes empresas farmacêuticas estão dispostas a comprometer recursos para este negócio. Se há um lado positivo para esta terrível pandemia, é que as coisas vão mudar depois da Covid-19”, refere.

Vacinas comparadas a um “seguro”

De acordo com o investigador, as vacinas são o equivalente a um ‘seguro’ em forma de medicamento: aplicamo-las para limitar o custo de catástrofes, mas nem sempre pensamos em investir nelas com antecedência. Muitos governos podem não ter percebido a necessidade de desenvolver e armazenar vacinas, reduzindo assim a procura por investigação na área das vacinas e tornando-as menos gratificantes para a indústria privada.

“As vacinas costumavam ser [mais] lucrativas”, diz Andrew Lo. “Mas, ao longo dos últimos 15 a 20 anos, acho que os governos começaram a cortar orçamentos e a ignorar questões que não são claras e apresentam perigos”.

A menos que haja uma ameaça imediata à saúde pública, “é realmente difícil conseguir que as pessoas se concentrem nela. É como um seguro… Achamos que não precisamos dele até ser preciso. E então geralmente é tarde demais”.

Essa austeridade fiscal também pode ter sido combinada com complacência histórica, uma vez que os sucessos do passado contra a varíola, a poliomielite e outras doenças criaram a perceção de que pandemias terríveis eram coisa do passado.

De qualquer forma, diz Andrew Lo, os dados mostram uma imagem clara: a investigação na área das vacinas é promissora e subfinanciada.

“A razão pela qual escrevemos este artigo é para gerar uma maior consciencialização para essa situação. Agora que sentimos as consequências mortais de uma pandemia, a esperança é que os governos à volta do mundo – e realmente precisam de ser governos – prestem mais atenção”, afirma.

“Precisamos de aproveitar esta oportunidade para encontrar uma solução mais duradoura, não apenas para esta pandemia, mas para todas as pandemias futuras, porque inevitavelmente, outra pandemia surgirá, seja a SARS, MERS ou algum outro patógeno que nunca encontramos. Graças a várias inovações biomédicas recentes, agora temos muito mais formas de criar anti-infecciosos do que nunca – só precisamos de vontade política para o fazer.”