Um em cada cinco doentes de alto risco submetidos a grandes cirurgias vai desenvolver uma ou mais complicações cardíacas no prazo de um ano, revela um estudo publicado no European Heart Journal.

“O nosso estudo revela uma maior probabilidade de problemas cardíacos ou morte após uma cirurgia do que foi reconhecido até agora”, revela o autor do estudo, Christian Puelacher, da Universidade de Basel, na Suíça.

“Os doentes também correm risco por um período mais longo do que se pensava.”

O trabalho foi realizado com doentes de alto risco, de 65 a 85 anos, e um grupo, com idades entre os 45 e 64, que sofria de doenças cardiovasculares (doença arterial coronária doença arterial periférica ou acidente vascular cerebral prévio).

Todos foram submetidos a uma cirurgia não cardíaca, o que os obrigou a que permanecessem no hospital pelo menos uma noite. 

“As pessoas submetidas a cirurgias de grande porte estão cada vez mais velhas e têm outras doenças, e esses são os doentes em que focamos o nosso estudo”, explica Puelacher.

“Ao fornecer informações sobre complicações pós-operatórias, a nossa investigação oferece a oportunidade para tornar a cirurgia ainda mais segura.”

300 milhões de cirurgias por ano

Por ano, e no mundo, são realizadas mais de 300 milhões de cirurgias. Apesar das vantagens, as cirurgias podem desencadear eventos cardíacos, incluindo ataques cardíacos, insuficiência cardíaca, distúrbios do ritmo cardíaco e morte.

Investigações anteriores tinham mostrado que quase três quartos dos doentes que morrem após uma cirurgia nunca foram admitidos em cuidados intensivos, sugerindo que o seu risco não era reconhecido.

Além disso, algumas complicações passam despercebidas porque não há sintomas – por exemplo, pessoas que tiveram um ataque cardíaco logo após uma cirurgia podem não apresentar dor no peito devido aos analgésicos que se encontra a tomar na sequência da intervenção.

Esses ataques cardíacos assintomáticos colocam o doente sob o mesmo risco de morte que aqueles com sintomas.

Um em cada sete com complicações

O estudo incluiu 2.265 pessoas, com uma idade média de 73 anos, 43% dos quais mulheres, que foram acompanhados ao longo de um ano após as cirurgias.

Aproximadamente um em cada sete doentes (15%) teve pelo menos uma complicação cardíaca nos 30 dias seguintes à cirurgia, sendo maior nas pessoas submetidas as cirurgias torácica s(22%), seguida de vasculares (21%) e de trauma (19%). Um em cada cinco doentes (21%) teve pelo menos uma complicação cardíaca no prazo de um ano.

“Este foi um dos primeiros estudos a monitorizar doentes para ataques cardíacos assintomáticos após a cirurgia”, refere o especialista. 

“Estes doentes estavam em maior risco de eventos subsequentes. Um terço dos que tiveram um ataque cardíaco assintomático tiveram pelo menos mais uma complicação cardíaca, em comparação com apenas 10% daqueles que não tiveram um ataque cardíaco assintomático”, acrescenta.

A maioria das complicações ocorreu nos 30 dias após a cirurgia, sobretudo na primeira semana. Mas os investigadores identificaram um período vulnerável de até cinco meses. Para o autor do estudo, a solução aqui não é deixar de fazer a cirurgia, até porque esta é necessária. “Não adie a cirurgia, mas se houver tempo e se quiser preparar, pare de fumar, seja fisicamente ativo e alimente-se de forma saudável para que o seu corpo fique em melhor forma.”