Nos adolescentes, o uso de cigarros eletrónicos duplica o risco de começarem a fumar cigarros tradicionais, revela um documento sobre ‘vaping’ publicado no European Journal of Preventive Cardiology, um jornal da Sociedade Europeia de Cardiologia. E prejudica o coração.

“O ‘vaping’ é comercializado para adolescentes e a indústria do tabaco usa figuras públicas para o promover como sendo mais saudável do que fumar”, explica a autora do documento, Maja-Lisa Løchen, especialista da Universidade Ártica da Noruega.

“A legislação sobre o marketing e as vendas de cigarros eletrónicos varia muito entre os países”, confirma. “É urgentemente necessária uma ação para interromper o crescente uso em jovens. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os cigarros eletrónicos são prejudiciais à saúde.”

Vários estudos já deram conta de um aumento de no uso de cigarros eletrónicos em jovens, que passou de 5% em 2013 para quase 25% em 2018. No caso dos adultos, até 5% usam cigarros eletrónicos, com grande variação entre os países.

O documento da Associação Europeia de Cardiologia Preventiva (EAPC) destaca os efeitos cardiovasculares dos cigarros eletrónicos, incluindo os dispositivos que não se parecem com cigarros. E apela aos reguladores para protegerem os jovens, limitando as vendas e a publicidade e proibindo os sabores doces que levam os adolescentes a acreditar serem menos prejudiciais.

A investigação mostrou que os cigarros eletrónicos aumentam a pressão sanguínea e os batimentos cardíacos, alteram as paredes das artérias, tonando-as mais rígidas e menos elásticas e inibem a função dos vasos sanguíneos, danificando o seu revestimento.

Cada um destes quatro efeitos são fatores de risco para coágulos sanguíneos e acumulação de gordura nas paredes das artérias, o que pode causar ataques cardíacos – um estudo realizado no ano passado já tinha encontrado uma ligação entre este tipo de cigarros e os ataques cardíacos.

Os malefícios do ‘vaping’

Além dos efeitos cardíacos, acumulam-se evidências de que o ‘vaping’ tem efeitos negativos nos pulmões e é prejudicial ao desenvolvimento do feto durante a gravidez, havendo mesmo estudos preliminares que indicam que podem causar cancro.

O que ainda não é claro é se estes cigarros podem ajudar as pessoas a parar de fumar, já que os estudos feitos até aqui tiveram resultados pouco consensuais. “Quando estes estudos são reunidos, não mostram que os cigarros eletrónicos são mais eficazes do que os métodos convencionais e bem testados para parar de fumar”, refere a especialista.

“Além disso, as pessoas que usam cigarros eletrónicos para parar de fumar costumam acabar por consumidor o dobro de cigarros tradicionais e de cigarros eletrónicos”, acrescenta

Para a investigadora, “os cigarros eletrónicos são um produto relativamente novo e os efeitos na saúde a longo prazo são desconhecidos. Agora é hora de políticos e reguladores agirem, com campanhas de saúde pública para aumentar a consciencialização e legislação para interromper a aceitação dos jovens”.

Médicos e investigadores recomendam, por isso, que se regule a publicidade de cigarros eletrónicos da mesma forma que foi feito para o tabaco tradicional, para proteger os jovens.

Pedem procedimentos de verificação de idade para impedir que adolescentes acedam a este tipo de cigarros e que, nas escolas, se eduquem as crianças sobre os efeitos negativos dos cigarros eletrónicos.

Exigem ainda campanhas públicas para aumentar a consciencialização sobre os efeitos adversos e impedir o início do ‘vaping’, que se considere uma forma de cessação tabágica apenas se os métodos convencionais falharem e aconselham a que se evitem os cigarros eletrónicos durante a gravidez.