Um novo estudo, publicado na revista Cardiovascular Research, mostra que uma única noite de ruído do trânsito rodoviário, em níveis típicos de quem vive numa cidade, causa stress ao coração e aos vasos sanguíneos.
As conclusões podem ajudar a explicar porque é que as pessoas expostas ao ruído do trânsito a longo prazo apresentam taxas mais elevadas de hipertensão e doenças cardíacas.
O estudo constatou que o ruído do trânsito rodoviário noturno em níveis baixos prejudica a função dos vasos sanguíneos e aumenta a frequência cardíaca, além de perturbar o sono. E encontrou ainda alterações nas proteínas sanguíneas associadas à inflamação e ao stress nos participantes expostos ao ruído noturno.
“Mesmo uma única noite de ruído do tráfego rodoviário stressou o sistema cardiovascular. Não esperávamos encontrar alterações biológicas tão consistentes em pessoas expostas a níveis de ruído típicos de quem vive perto de uma estrada”, explica o autor principal, Omar Hahad, do Centro Médico Universitário da Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha.
As conclusões corroboram os apelos da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Organização Mundial de Saúde para uma regulamentação mais rigorosa do ruído e realçam a necessidade de um planeamento urbano que proteja o sono e a saúde cardiovascular em ambientes cada vez mais poluídos pelo ruído.
O impacto do trânsito na saúde
Setenta e quatro pessoas saudáveis participaram no estudo durante três noites. Em cada noite, foram expostas a uma de três condições de ruído: ausência de ruído (grupo de controlo), 30 episódios de ruído de trânsito ou 60 episódios de ruído de trânsito.
Na manhã seguinte, os participantes realizaram uma série de exames de saúde, incluindo um teste padrão da função dos vasos sanguíneos, em que uma menor percentagem de dilatação dos vasos sanguíneos indica um comprometimento da função vascular e está associada a um risco aumentado de doença cardiovascular. A taxa de dilatação mediada pelo fluxo para o grupo de controlo foi de 9,35%, enquanto que para os participantes expostos a 30 episódios de ruído de tráfego noturno foi de 8,19% e para os expostos a 60 episódios de ruído noturno foi de 7,73%.
A análise de amostras de sangue de participantes expostos ao ruído mostrou alterações na sinalização de proteínas envolvidas nas respostas inflamatórias e ao stress.
A exposição ao ruído também aumentou a frequência cardíaca média dos participantes em 1,23 batimentos por minuto. A qualidade do sono e o nível de repouso reportados pelos participantes foram significativamente reduzidos em todas as dimensões após a exposição ao ruído.
“Mesmo enquanto dormimos, os nossos corpos continuam a ouvir. A ativação repetida de respostas ao stresse noite após noite pode ajudar a explicar porque é que as pessoas expostas ao ruído do trânsito durante longos períodos apresentam taxas mais elevadas de hipertensão e doenças cardíacas. Proteger o nosso sono combatendo a poluição sonora deve fazer parte da forma como pensamos sobre a prevenção de doenças cardiovasculares em cidades de todo o mundo”, acrescenta Hahad.
“Reduzir a exposição ao ruído no quarto, sempre que possível, é uma medida razoável, seja mudando os quartos para mais longe da rua ou comprando janelas com elevado isolamento. Os tampões para os ouvidos também podem reduzir a carga sonora, embora ainda não tenhamos provas sólidas de que protejam contra riscos cardiovasculares. Fazer mudanças no estilo de vida, como dietas mais saudáveis e exercício físico, também seria uma medida de proteção”, reforça o especialista.
“No entanto, o maior impacto positivo viria de medidas estruturais e sociais, como a redução do trânsito noturno, ruas mais silenciosas, melhor planeamento urbano e bom isolamento térmico nos edifícios”, conclui.
Thomas Münzel, autor principal e Presidente do Grupo de Trabalho de Sustentabilidade Ambiental da Sociedade Europeia de Cardiologia considera que “o ruído do transporte deve ser formalmente reconhecido nas futuras diretrizes de prática clínica sobre prevenção cardiovascular como um fator de risco cardiovascular independente e não tradicional, dadas as evidências epidemiológicas e mecanísticas consistentes que ligam a exposição crónica à hipertensão, doença cardíaca isquémica, acidente vascular cerebral e disfunção cardiometabólica em níveis abaixo dos atuais limites regulamentares”.
Os investigadores observam que este foi um estudo de curto prazo com adultos jovens e saudáveis, e que são necessárias mais pesquisas para compreender como estes resultados se relacionam com o risco a longo prazo de doenças cardiovasculares. Gostariam de confirmar as alterações nas proteínas sanguíneas num estudo maior no futuro.
De acordo com estimativas recentes da Agência Europeia do Ambiente, aproximadamente 150 milhões de pessoas, mais de 30% da população do Espaço Económico Europeu, que inclui todos os Estados-Membros da União Europeia, bem como a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega, estão expostas a níveis de ruído de transporte prejudiciais à saúde a longo prazo (acima de 55 decibéis de níveis de ruído diurno-vespertino-noturno ou Lden), quando avaliados em comparação com os valores de referência da Organização Mundial de Saúde, sendo o trânsito rodoviário o principal contribuinte, representando a maioria dos indivíduos expostos.
Crédito imagem: Pixabay















