Grandes flutuações na temperatura estão associadas a um risco acrescido de enfarte, revela um estudo hoje apresentado na 67ª Sessão Científica Anual do American College of Cardiology. Numa altura em que os modelos de previsão apontam para a existência de cada vez mais situações meteorológicas extremas, esta investigação alerta para o aumento, na sequência destas, das ocorrências de enfartes.

Para além da tendência geral para o aquecimento, é provável que as alterações climáticas conduzam a eventos mais extremos, como ondas de calor e períodos de frio, dependendo da zona geográfica. E isto pode, por sua vez, “resultar em grandes flutuações diárias na temperatura”, refere Hedvig Andersson, investigador de cardiologia na Universidade do Michigan e autor principal do estudo. “

O nosso trabalho sugere que estas flutuações na temperatura exterior podem levar a um aumento no número de enfartes e afetar a saúde cardíaca global no futuro.”

A ideia de que a temperatura externa afeta a taxa de enfartes não nova, com o clima frio a contribuir para um aumento de risco já identificado. No entanto, a maioria dos trabalhos anteriores concentrou os seus esforços nas temperaturas diárias globais, com este a ser um dos primeiros a examinar a associação às alterações repentinas de temperatura.

“Embora o organismo tenha sistemas eficazes para dar resposta às mudanças de temperatura, as flutuações mais rápidas e extremas podem dar origem a stress acrescido sobre os sistemas, o que pode, por sua vez, contribuir para problemas de saúde”, afirma Andersson, observando que o mecanismo subjacente a esta associação permanece desconhecido.

A investigação teve por base mais de 30.000 doentes tratados em 45 hospitais do Michigan, entre 2010-2016, todos eles alvo de um procedimento utilizado para abrir as artérias entupidas, depois de terem sido diagnosticados com enfarte do miocárdio com elevação de ST, a forma mais grave do enfarte.

Os investigadores olharam para a flutuação de temperatura que precedeu cada um dos eventos cardíacos, com base nos registos meteorológicos, sendo a flutuação diária da temperatura definida como a diferença entre a temperatura mais alta e a mais baixa registada no dia do enfarte.

No geral, os resultados mostraram que o risco de um ataque cardíaco aumenta cerca de 5% por cento para cada salto de cinco graus no diferencial de temperatura. E o aumento súbito da temperatura parece ter um impacto maior nos dias mais quentes.

“Normalmente pensamos nos fatores para o enfarte como aqueles que se aplicam a doentes individuais e, consequentemente, identificamos mudanças de estilo de vida ou medicamentos para lidar com eles. Os fatores de risco a nível populacional precisam de uma abordagem semelhante”, explica Hitinder Gurm, professor de medicina e diretor clínico da Michigan Medicine e outro dos autores do estudo.

“As flutuações de temperatura são comuns e [frequentemente] previsíveis. É necessária mais investigação para perceber os mecanismos subjacentes à forma como estas flutuações aumentam o risco de enfarte, o que nos permitirá talvez conceber uma abordagem de prevenção bem-sucedida”.