Os cientistas descobriram que o confinamento afeta a nossa memória e capacidade cognitiva. Um estudo feito com italianos, que estiveram dois meses seguidos confinados devido à Covid-19 em 2020, verificou que era comum um aumento nas distrações e divagações mentais.

Brett Hayes, psicólogo cognitivo da Escola de Psicologia da UNSW, apresenta este estudo, feito com 4.000 entrevistas, que descobriu que 30% das pessoas avaliadas tinham sentido algum grau de mudança na sua cognição quotidiana.

Alguns dos problemas comuns do dia-a-dia estavam associados à falta de memória: por exemplo, onde se deixou o telemóvel, dificuldade em focar a atenção e perder a concentração ao tentar ler um livro ou assistir a algo online.

Siruação ainda pior, revela o especialista, “para as pessoas que tinham problemas emocionais, que estavam a sentir-se deprimidas ou stressadas e ansiosas, pois tinham mais destes sintomas. Mas mesmo para aqueles sem estas questões, os problemas cognitivos eram muito comuns”.

Presos no ‘Feitiço do Tempo’

O estudo sugere que a razão pela qual a nossa memória diária piora no confinamento tem a ver com o facto de estarmos a viver uma espécie de Feitiço do Tempo, nome dado ao filme norte-americano sobre um homem que fica preso numa armadilha temporal que o faz reviver o mesmo dia vezes sem conta. E é isso, refere o especialista, que torna mais difícil para o nosso cérebro armazenar memórias e recuperá-las mais tarde.

“O que sabemos sobre a memória humana é que o contexto é muito importante. Podemos estar a fazer um trabalho em casa, conversar com um amigo ou assistir a um filme e, quando temos estas experiências, podemos estar focados na parte principal da experiência, mas o nosso cérebro está a codificar muitas outras coisas apenas acidentalmente: como isso está a acontecer, onde e quando”, explica o psicólogo.

O nosso cérebro é sensível a esse contexto de fundo, o que nos ajuda a estabelecer as memórias de uma forma fácil para recuperarmos essas experiências mais tarde.

“Então, quando o contexto está a mudar, o que normalmente acontece na vida quotidiana, quando estamos a mexer e a visitar lugares diferentes, em diferentes momentos do dia, é fácil estabelecer memórias e relembrá-las. Mas quando estamos confinados, as oportunidades de nos movermos no ambiente e de nos envolvermos em atividades diferentes são muito limitadas”, refere.

“E quando entramos no ciclo do ‘Feitiço do Tempo’, com apenas variações da mesma coisa todos os dias, é quando os dias tendem a começar a confundir-se, porque temos o mesmo contexto para cada dia.” E isso torna mais difícil para o nosso cérebro separar essas experiências, sendo uma das razões pelas quais temos névoas de memória durante esse período.

Como reduzir o impacto do confinamento na memória

Um estudo sobre o confinamento de dois meses na Escócia, no ano passado, atribuiu aos destinatários tarefas online para testar a sua memória, tomada de decisão e atenção seletiva.

E descobriu que o desempenho era pior durante o confinamento, mas uma vez atenuadas as restrições, sobretudo o isolamento social, a recuperação foi rápida.

Os níveis de interação social durante o confinamento foram também relacionados com o desempenho cognitivo. “As pessoas que conseguiram manter a sua interação online nesse período saíram-se melhor nessas tarefas”, avança o psicólogo.

“Por isso, o isolamento completo é realmente muito mau para o nosso funcionamento cognitivo, mas se pudermos manter esse nível de interação em algum grau com quem está na nossa casa ou online, isso parece ser bom para o nosso funcionamento cognitivo.”

“Do ponto de vista da memória, se for capaz de se exercitar fora de casa, varie o tipo de exercício de um dia para o outro, apenas para permitir um contexto diferente para o seu cérebro”, diz Hayes. 

Até porque há uma relação estreita entre uma boa capacidade cognitiva e a atividade física. “O que significa que praticar exercício regular é bom para tentar manter a nossa memória e tomada de decisão em forma.”