Um estudo que olhou para os dados de mais de 70.000 pessoas assistidas em 302 hospitais do Reino Unido descobriu que uma em cada duas hospitalizadas com COVID-19 desenvolveu pelo menos uma complicação. O novo estudo, publicado no The Lancet, é o primeiro a avaliar sistematicamente uma série de complicações hospitalares e as suas associações à idade, sexo e etnia, e resultado para os doentes.

Os autores afirmam que estas complicações provavelmente têm impactos importantes a curto e longo prazo para os pacientes, para a utilização dos serviços de saúde, a para preparação do sistema de saúde e da sociedade em tempos de pandemia. Observam também que estas complicações são diferentes dos sintomas do chamado COVID de longo prazo nas pessoas que não foram hospitalizadas.

Os autores revelam que as complicações nos doentes internados com COVID-19 são grandes, mesmo em indivíduos jovens previamente saudáveis ​​- com 27% daqueles com idades entre os 19-29 anos e 37% dos da faixa 30-39 anos a apresentarem uma complicação.

E observam ainda que as complicações agudas estão associadas à capacidade reduzida de autocuidado no momento da alta – com 13% dos jovens de 19 a 29 anos e 17% dos de 30 a 39 anos a serem incapazes de cuidar de si mesmos após a alta hospitalar.

Complicações também em jovens

O estudo analisou casos entre 17 de janeiro e 4 de agosto de 2020, antes de as vacinas estarem amplamente disponíveis e numa altura em que não havia ainda novas variantes do vírus. No entanto, os autores consideram que as suas descobertas permanecem relevantes para dissipar as sugestões de que a COVID-19 não apresenta risco para adultos jovens saudáveis, muitos dos quais que continuam por vacinar.

E alertam que os formuladores de políticas devem ter em consideração o risco de complicações para aqueles que sobrevivem à COVID-19, e não apenas a questão da mortalidade, ao tomarem decisões sobre a flexibilização das restrições.

Preveem ainda que as complicações da COVID-19 provavelmente irão causar desafios significativos para os indivíduos e para o sistema de saúde e assistência social nos próximos anos. Os formuladores de políticas devem prever que grandes quantidades de recursos de saúde e assistência social vão ser necessários para apoiar aqueles que sobrevivem à COVID-19.

Calum Semple, especialista da Universidade de Liverpool, no Reino Unido e coautor sénior do estudo, considera que “este trabalho contradiz as narrativas atuais de que a COVID-19 é perigosa apenas para as pessoas com comorbilidades existentes e para os idosos. Dissipar e contribuir para o debate científico em torno de tais narrativas tornou-se cada vez mais importante. A gravidade da doença na admissão é um preditor de complicações mesmo em adultos mais jovens, pelo que a prevenção de complicações requer uma estratégia de prevenção primária, ou seja, a vacinação”.

Para Ewen Harrison, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, também coautora sénior, “os pacientes hospitalizados com COVID-19 apresentavam frequentemente complicações da doença, mesmo aqueles em grupos de idades mais jovens e sem condições de saúde preexistentes. Essas complicações podem afetar qualquer órgão, mas sobretudo os rins, o coração e os pulmões. Aqueles com complicações tiveram problemas de saúde na alta hospitalar e alguns terão consequências a longo prazo. Agora temos uma compreensão mais detalhada da COVID-19 e dos riscos apresentados, mesmo para pessoas mais jovens e saudáveis”.

E acrescenta: “a nossa análise destaca alguns padrões e tendências perspicazes que podem informar os sistemas de saúde e as respostas dos formuladores de políticas sobre os impactos da COVID-19. Os nossos resultados também podem ajudar a desenhar as mensagens de saúde pública sobre o risco que a COVID-19 representa para as pessoas mais jovens e saudáveis, particularmente em termos da importância da vacinação para este grupo”.

Alerta para políticas de saúde

Foram, ao todo, 80.388 os pacientes incluídos no estudo, mas 7.191 foram excluídos devido a registos médicos duplicados, por não serem elegíveis para o estudo, ou porque nenhum dado foi recolhido sobre as compilações que tiveram durante o internamento.

Dos 73.197 pacientes restantes, 56% eram homens, 81% tinham um problema de saúde subjacente, 74% eram de etnia branca, e a idade média da coorte foi de 71 anos. Quase um em cada três participantes (32%, 23.092 de 73.197) do estudo morreu. No que diz respeito às complicações, no geral, estas ocorreram em 50% de todos os participantes, incluindo 44% (21.784 de 50.105) dos participantes que sobreviveram.

As complicações mais comuns foram renais (afetando quase uma em cada quatro pessoas, 24%, 17.752), respiratórias (afetando cerca de uma em cada cinco pessoas, 18%, 13.486) e sistémicas (afetando um em cada seis, 16%, 11.895).

“No entanto, as complicações cardiovasculares foram relatadas em cerca de um em cada oito participantes (12%, 8.973) e complicações neurológicas (menos de um em 20, 4%, 3.115) e gastrointestinais ou hepáticas (11%, 7.901) também foram relatadas”. Lesão renal aguda, provável síndroma do desconforto respiratório agudo, lesão hepática, anemia e arritmia cardíaca foram as complicações mais comuns.

A incidência de complicações aumentou com a idade, ocorrendo em 39% dos que tinham entre 19 e 49 anos, em comparação com 51% das pessoas com 50 anos ou mais.

Subindo as faixas etárias, 27% dos com idade entre os 19 e os 29 anos hospitalizados com COVID-19 desenvolveram uma complicação, assim como 37% dos da faixa 30-39 anos, 43% dos da faixa 40-49 anos, 49% dos da faixa 50-59 anos, 54% das pessoas de 60-69 anos, 52% das pessoas de 70-79 anos, 51% das pessoas de 80-89 anos e 50% das pessoas de 90 anos ou mais.

As complicações foram mais comuns em homens, em comparação com as mulheres, sendo os homens com mais de 60 anos o grupo mais provável de ter pelo menos uma complicação (mulheres com menos de 60 anos: 37% e homens 49%; mulheres com 60 anos ou mais: 48% e homens 55%).

Pessoas de etnia branca, do sul da Ásia e do Leste Asiático tiveram taxas semelhantes de complicações, mas as taxas foram mais altas em pessoas negras (58% em pacientes negros vs 49% em pacientes brancos)

Após a hospitalização, 27% dos pacientes eram menos capazes de cuidar de si próprios do que antes da COVID-19, e isso era mais comum com a idade avançada, sendo mais comum entre os do sexo masculino e as pessoas que tinham recebido cuidados intensivos.

A associação entre ter uma complicação e pior capacidade para o autocuidado permaneceu independente da idade, sexo, nível socioeconómico e em qual hospital em que a pessoa recebeu tratamento. As complicações neurológicas foram associadas ao maior impacto na capacidade para o autocuidado.

Com base nessas taxas, os autores afirmam que os formuladores de políticas e planeadores na área da saúde devem prever que grandes quantidades de recursos de saúde e assistência social serão necessários para apoiar aqueles que sobrevivem à COVID-19. 

Thomas Drake, coautor da Universidade de Edimburgo, afirma esta análise olhou para “uma ampla gama de complicações e descobriu que danos a curto prazo em vários órgãos são extremamente comuns nos pacientes com Covid-19 tratados em hospitais. Essas complicações foram comuns em todas as faixas etárias, não apenas em pessoas mais velhas ou com problemas de saúde preexistentes”.

“As pessoas que apresentam complicações geralmente precisam de cuidados especializados e ajuda extra para se recuperarem da sua admissão hospitalar inicial. O nosso estudo mostra que é importante considerar não apenas a morte por COVID-19, mas também outras complicações. Isso deve fornecer aos formuladores de políticas dados para ajudá-los a tomar decisões sobre como lidar com a pandemia e planear o futuro”, acrescenta.