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E se pudéssemos detetar doenças mais cedo, antes do aparecimento dos sintomas?

detetar doenças com tecnologia

A maioria das doenças crónicas não começa com sintomas evidentes ou sinais de alerta dramáticos. Em vez disso, desenvolvem-se silenciosamente ao longo de muitos anos, à medida que se acumulam pequenas alterações no corpo. Especialistas do Instituto Buck para a Investigação do Envelhecimento, nos EUA, observa que a medicina moderna espera frequentemente até que a doença esteja avançada e defende que as novas tecnologias poderão ajudar a detetar o risco muito mais cedo, quando a prevenção pode ser mais eficaz.

A perspetiva, intitulada “Esperamos que a doença grite. E se ouvíssemos quando a biologia sussurra?”, introduz o conceito da “cauda longa” da biologia. Em vez de serem causadas por um único fator, a maioria das doenças e problemas relacionados com o envelhecimento desenvolve-se a partir do impacto combinado de muitas pequenas influências, incluindo a genética, o estilo de vida, as exposições ambientais, os padrões de sono, o stress e as alterações no microbioma intestinal. Com o tempo, estas mudanças subtis podem enfraquecer gradualmente a resiliência do corpo e aumentar o risco de doenças crónicas.

“Para muitas doenças, quando são diagnosticadas o corpo já se desvia do seu curso normal há anos”, afirma Nathan Price, professor do Instituto Buck e autor sénior do artigo. “Temos agora a oportunidade de detetar estas alterações precoces, monitorizando o que é normal para cada indivíduo e percebendo quando a biologia começa a mover-se na direção errada.”

A vantagem dos avanços na tecnologia

De acordo com os investigadores, doenças como a diabetes tipo 2, as doenças cardíacas e os distúrbios neurodegenerativos começam frequentemente a desenvolver-se muito antes do aparecimento dos sintomas.

Por exemplo, na diabetes tipo 2, as alterações biológicas relacionadas com a inflamação, o metabolismo e a função da insulina podem ocorrer 10 a 15 anos antes de os níveis de açúcar no sangue subirem o suficiente para desencadear um diagnóstico. Os autores defendem que a deteção destes sinais de alerta precoce pode abrir caminho para intervenções que ajudam a atrasar ou mesmo a prevenir a doença.

Para que isto seja possível, a perspetiva propõe uma nova estrutura personalizada, que trata cada indivíduo como o seu próprio ponto de referência biológico. Ao monitorizar as alterações ao longo do tempo, em vez de comparar alguém com as médias da população, os investigadores acreditam que pode ser possível identificar alterações subtis que sinalizam um risco acrescido.

E os avanços na tecnologia da saúde estão a tornar esta abordagem cada vez mais realista. Os dispositivos wearable podem agora monitorizar continuamente a frequência cardíaca, o sono, a atividade e outros sinais fisiológicos, enquanto as técnicas laboratoriais modernas permitem aos cientistas medir milhares de marcadores biológicos a partir de amostras simples, como sangue, saliva, urina ou até mesmo ar expirado. Combinadas com ferramentas de inteligência artificial capazes de analisar padrões complexos, estas tecnologias podem ajudar a traduzir grandes quantidades de dados em informação significativa e personalizada.

“A medicina concentra-se tradicionalmente no tratamento de doenças após o aparecimento dos sintomas”, explica Noa Rappaport, autora principal do artigo e professora associada de investigação no Instituto Buck. “O nosso objetivo é mudar o foco para a proteção da saúde, identificando precocemente os riscos e compreendendo como a biologia de cada pessoa muda ao longo do tempo.”

Os autores realçam que ainda persistem grandes desafios. “Os testes biológicos avançados são dispendiosos, e os sistemas de saúde são amplamente concebidos para tratar doenças em vez de monitorizar a saúde a longo prazo”, afirma Lee Hood, professor catedrático e codiretor do Centro de Saúde do Instituto Buck. “Garantir o amplo acesso a tecnologias preventivas será fundamental para evitar novas disparidades na saúde. Além disso, os sistemas regulamentares terão de se adaptar para avaliar novas abordagens que se baseiam em dados personalizados e análises orientadas para a inteligência artificial.”

Apesar destes desafios, os investigadores afirmam que as ferramentas necessárias para transformar a prevenção estão a surgir rapidamente. Combinando sensores wearable, medições biológicas avançadas e inteligência artificial, perspetivam um futuro em que a assistência médica se concentra não só no tratamento de doenças, mas também na preservação da saúde ao longo da vida.

Crédito imagem: iStock

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