Uma nova investigação demonstra que a utilização de um estetoscópio digital com inteligência artificial (IA) mais do que duplicou a identificação de doenças das válvulas do coração moderadas a graves em exames clínicos de rotina, em comparação com um estetoscópio tradicional.
O estudo americano, publicado no European Heart Journal – Digital Health, mostra que a ferramenta com IA pode ajudar os médicos a identificar doentes que, de outra forma, poderiam passar despercebidos.
Um total de 357 doentes com fatores de risco para doença cardíaca, com 50 anos ou mais, foram avaliados utilizando tanto um estetoscópio tradicional como um estetoscópio digital com IA. Resultado: este último demonstrou uma sensibilidade significativamente maior na deteção de padrões de sons cardíacos que indicavam doenças que afetam as válvulas cardíacas (valvulopatia), com 92,3% de sensibilidade, em comparação com 46,2% do estetoscópio tradicional.
A valvulopatia pode afetar mais de metade dos adultos com mais de 65 anos, mas permanece frequentemente sem diagnóstico por parte dos profissionais de saúde que utilizam o estetoscópio tradicional na prática clínica geral. É um problema que pode afetar a função cardíaca, reduzindo a capacidade de uma pessoa para realizar atividades físicas, e está associada a arritmias, insuficiência cardíaca, aumento de hospitalizações e até mortes. No entanto, os sintomas podem estar ausentes, ser vagos ou inespecíficos, o que significa que muitos doentes desconhecem a doença até que esta se encontre numa fase mais avançada.
“A doença cardíaca valvular é infelizmente muito comum entre os adultos mais velhos, mas muitas vezes passa despercebida até que os sintomas se tornem avançados. Isto significa que os doentes podem sofrer complicações e agravamento da saúde que poderiam ter sido evitados com um diagnóstico precoce”, explica Rosalie McDonough, autora principal do estudo.
“Demonstrámos que um estetoscópio com inteligência artificial é muito mais eficaz na identificação de pessoas com doença valvular moderada a grave do que um estetoscópio tradicional em situações clínicas reais. Esperamos que esta tecnologia permita aos doentes ter acesso mais rápido a um ecocardiograma para um diagnóstico formal e, consequentemente, um acesso mais ágil ao tratamento. A nível populacional, esta tecnologia poderá reduzir as admissões hospitalares e o custo global dos cuidados de saúde”, acrescenta.
Deteção mais precoce
O estetoscópio digital com inteligência artificial funciona através da gravação de sons cardíacos de alta fidelidade e da aplicação de algoritmos de aprendizagem automática treinados para reconhecer os padrões acústicos associados às doenças das válvulas do coração.
Os métodos tradicionais dependem de um profissional de saúde que utiliza um estetoscópio convencional, e isso, por sua vez, depende da audição e experiência do próprio profissional, podendo ser afetado por fatores como ruído de fundo ou pressão de tempo. Os doentes identificados como de risco para doença valvular nos cuidados primários serão encaminhados para diagnóstico por ecocardiografia.
“O uso da inteligência artificial proporciona uma camada analítica adicional, destacando anormalidades que podem ser difíceis de detetar consistentemente apenas pela audição. Mas a tecnologia não está a substituir o profissional; o uso deste dispositivo exige que os médicos utilizem o seu próprio julgamento clínico”, acrescenta McDonough.
“Um benefício adicional que observámos durante o estudo foi que os doentes avaliados com o estetoscópio digital com IA pareceram mais envolvidos durante a consulta. Acreditamos que isto se deveu ao facto de poderem ver e ouvir a que é que o médico estava a responder, o que pode aumentar a confiança e o envolvimento com o tratamento de seguimento.”
Os autores do estudo observaram que o estetoscópio digital com inteligência artificial levou a uma pequena redução da especificidade, o que poderia potencialmente aumentar os falsos positivos, mas sugerem que este risco é compensado pelo valor da deteção precoce. Observam ainda que serão necessárias mais pesquisas para testar o desempenho da tecnologia em ambientes clínicos mais amplos e em populações mais diversas.
“Esta investigação contribui para um conjunto crescente de evidências de que a inteligência artificial pode melhorar as ferramentas clínicas tradicionais de uma forma prática e responsável, que não substitui os profissionais de saúde, mas fornece-lhes ferramentas para terem mais confiança na avaliação dos doentes”, conclui McDonough.
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