Skip to main content Scroll Top

IA mostra que enxaqueca deixa ‘marcas’ em todo o corpo

diagnosticar a enxaqueca

Um novo estudo da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) revela que as enxaquecas podem deixar um padrão biológico por todo o corpo, cujos vestígios podem ser identificados por inteligência artificial.


“Existem muitas inconsistências no diagnóstico das enxaquecas. Parece que a IA pode ajudar-nos a fazer o diagnóstico correto”, afirma Anker Stubberud, médico e investigador de dores de cabeça na NTNU.

Os investigadores utilizaram a IA para analisar informações recolhidas de mais de 43.000 participantes durante um estudo de saúde, que mostra que esta  condição pode ser identificada através de uma interação complexa entre a genética, as características clínicas e os fatores ambientais.

“As enxaquecas são um grande problema de saúde em todo o mundo e têm um impacto considerável na qualidade de vida. Os diagnósticos precisos são importantes para que as pessoas possam receber o melhor tratamento possível”, afirma Stubberud.

Na realidade, metade da população mundial sofre de dores de cabeça e, para algumas pessoas, estas dores de cabeça são tão intensas que configuram enxaqueca, caracterizada por sintomas como dores de cabeça pulsáteis, sensibilidade à luz e ao som, vómitos e náuseas.

Um dos desafios na identificação desta forma de dor de cabeça é que o diagnóstico se baseia inteiramente nos sintomas. “Não existem análises ao sangue ou outros testes biológicos que possam ser utilizados como parte do processo de diagnóstico. Tudo o que temos é a descrição dos sintomas feita pela pessoa. Se o diagnóstico estiver incorreto, o tratamento também pode não ser eficaz. Por isso, estamos a explorar se podemos identificar marcadores biológicos que possam ajudar os profissionais de saúde a fazer o diagnóstico correto”, afirma Stubberud.

Qual o papel da IA no diagnóstico?

Os investigadores desenvolveram um modelo de IA capaz de distinguir pessoas com enxaqueca de pessoas sem dores de cabeça. O modelo teve por base dados como a idade, o sexo e a informação geral de saúde, “desde a obstipação e o uso de medicamentos até à dor nas costas. Incluímos 60 variáveis ​​diferentes. O facto de a IA conseguir identificar a enxaqueca com tanta precisão sem saber nada sobre a própria dor de cabeça sugere que a condição deixa vestígios que vão muito além das crises”, afirma Stubberud.

A investigação não só indicou que as enxaquecas têm uma assinatura biológica distinta e rastreável, como também revelou vários subgrupos até então desconhecidos.

Quatro formas diferentes de enxaqueca

Utilizando um método no qual a IA procura padrões nos dados de forma independente, os investigadores analisaram mais de 12.000 pessoas com diferentes tipos de dor de cabeça. A análise identificou inicialmente dois grupos principais distintos: o primeiro grupo era composto por 1.425 pessoas, das quais mais de 90% preenchiam os critérios para enxaqueca; os restantes (10.760 pessoas) apresentavam outros tipos de cefaleia que correspondiam apenas parcialmente aos critérios para esta condição, ou apresentavam outras formas de cefaleia completamente diferentes.

Isto sugere que a IA foi capaz de identificar um perfil distinto de enxaqueca independentemente dos critérios de diagnóstico tradicionais. A descoberta mais interessante surgiu quando os investigadores analisaram mais detalhadamente o grupo com enxaqueca e encontraram quatro subgrupos com características distintas:

1. Um grupo exclusivamente masculino – Este subgrupo destacou-se claramente porque todos os participantes eram homens. Esta descoberta pode indicar que a enxaqueca nos homens apresenta características distintas que são frequentemente obscurecidas quando os investigadores analisam mulheres e homens em conjunto.

2.Um grupo com dor cervical intensa – As pessoas deste grupo relataram dor cervical significativa, para além da enxaqueca, o que poderá fornecer novas informações sobre a relação bem conhecida, mas ainda debatida, entre a dor cervical e a enxaqueca.

3.Um grupo com dor musculoesquelética extensa, ansiedade e depressão – Este subgrupo apresentou uma maior prevalência de dor generalizada, problemas de saúde mental e outros problemas de saúde, o que pode representar uma forma mais complexa de enxaqueca, na qual estão simultaneamente envolvidos vários sistemas biológicos.

4.Um grupo com enxaqueca clássica – O último grupo apresentou sintomas que se aproximavam mais da definição estabelecida de enxaqueca, incluindo a aura, sem os problemas de saúde adicionais pronunciados que caracterizavam os outros grupos. A aura da enxaqueca é um conjunto de sintomas neurológicos temporários que podem ocorrer antes ou durante uma crise. Mais comummente, são distúrbios visuais como flashes de luz, padrões em ziguezague, pontos cegos ou áreas cintilantes, mas também podem envolver formigueiro ou dormência, dificuldade em falar ou outros sintomas neurológicos.

“Isto reforça a hipótese de que a enxaqueca não é uma única doença, mas sim um grupo diversificado de diferentes condições biológicas”, afirma Stubberud, o que poderá abrir caminho para um tratamento mais personalizado.

O estudo sugere que o diagnóstico no futuro poderá ser mais orientado por dados, fornecendo uma ferramenta adicional ao julgamento clínico do médico e à descrição dos sintomas por parte do doente. “Até agora, grande parte da investigação sobre a IA na área da saúde tem-se baseado apenas em números e estatísticas. A IA deveria ser testada em doentes que procuram ajuda médica para as dores de cabeça, mas esta investigação é ainda insuficiente. Estas ferramentas de IA ainda não foram testadas na prática clínica”, refere Stubberud, que sublinha que, se diferentes formas de enxaqueca tiverem realmente causas biológicas diferentes, isso também poderá ter implicações no tratamento.

Crédito imagem: Unsplash

Posts relacionados