
O envolvimento do internista na gestão hospitalar, as inovações em saúde e a preocupação com a questão social foram temas em destaque do 24º Congresso Nacional de Medicina Interna, assim como as alternativas ao internamento convencional, uma forma de contornar as limitações dos sistemas de saúde.
Com direito a mesa redonda, foram dadas a conhecer as experiências desenvolvidas no Hospital Garcia de Orta, com um projeto de hospitalização domiciliária, e na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano, alternativas que, considera Estevão de Pape, são já uma aposta de futuro.
Tendo em conta que as limitações ao internamento são um problema da maioria dos sistemas de saúde públicos, resultado do aumento do número de doentes crónicos e com multimorbilidades, o especialista partilha que o Hospital Garcia de Orta foi o primeiro, no País, a ter um internamento domiciliário inserido no serviço de Medicina Interna.
Uma experiência “muito positiva e bem-sucedida”. E que pode, no futuro, servir de exemplo para outras. “Se tivermos 100 camas neste sistema, temos um hospital inteiro em casa”, salienta, reforçando tratar-se de uma alternativa aos sistemas de saúde “que não é só para o doente agudo, mas também para o doente pós-cirurgia”, mas que apenas é concretizável “com uma ligação à Medicina Geral e Familiar”.
Medicina de precisão: que futuro?
A Medicina de Precisão foi outro dos temas em destaque, pela voz de Francisco Araújo, que deixou antever as possibilidades que este conceito permite, mas também os desafios a ele associados.
O co-coordenador do serviço de Medicina Interna do Hospital Beatriz Ângelo realçou que a assinatura genética de cada indivíduo possibilita que se escolha a terapêutica mais eficaz para cada doente e se mitiguem os efeitos secundários, mesmo já na área cardiovascular ou da diabetes.
Segundo Francisco Araújo, a genética é um dos pilares deste conceito, permitindo a simplificação de técnicas de diagnóstico e tratamento. Mas acrescenta que é também a partir deste campo que se levantam as principais dúvidas e dilemas quanto a este admirável Mundo Novo.
A necessidade gigantesca de armazenamento de dados que comporta, que tornam possível estudar populações e aspetos nunca antes analisados, com vantagens incalculáveis, tem custos. “Como é que isto vai ser feito? Quem vai pagá-lo? Tenho hoje mais dúvidas do que certezas… é muita informação e não sei o que podemos fazer a esta onda de dados”, ressalva.
Um congresso “100 margens”
“Este foi um evento de elevado nível científico e um sucesso”, não só em quantidade, mas sobretudo na qualidade do que foi debatido, garante Estevão de Pape, presidente do encontro, que salienta um dos temas em destaque: as alternativas ao internamento convencional.
“Pretendemos colocar na agenda a questão do envelhecimento da população, os idosos, as comorbilidades e o que tudo isso acarreta. Esta tem sido uma grande preocupação da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e foi uma questão abordada no congresso, que conseguiu cumprir os seus objetivos: não ter margens da discussão.”
Um congresso “100 margens”, que mereceu um cumprimento por parte do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa não teve oportunidade de estar presente mas, em vídeo, agradeceu o papel e a missão dos médicos e salientou a importância do tema. Porque, como disse, “não há margens para a reflexão”.