De acordo com os dados apresentados no último encontro da Alzheimer’s Association International, estima-se que o número de pessoas com demência venha a triplicar, chegando aos 152 milhões em 2050, com os maiores aumentos a verificarem-se no leste da África subsaariana, norte de África e Médio Oriente.

“As melhorias no estilo de vida de adultos em países desenvolvidos e noutros lugares, incluindo o aumento do acesso à educação e uma maior atenção aos problemas de saúde cardíaca, reduziram a incidência nos últimos anos, mas o número total de casos de demência ainda está a aumentar devido ao envelhecimento da população”, refere Maria C. Carrillo, diretora científica da Alzheimer’s Association International.

“Além disso, a obesidade, a diabetes e o estilo de vida sedentário nas pessoas mais jovens estão a aumentar rapidamente e esses são fatores de risco para a demência.”

O Instituto Nacional do Envelhecimento dos EUA estima que as pessoas com mais de 65 anos representarão 16% da população mundial em 2050, um valor muito superior aos 8% de 2010.

Para prever com mais precisão a prevalência global de demência e produzir estimativas ao nível dos países, Emma Nichols, especialista do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Escola de Medicina da Universidade de Washington, nos EUA, e os colegas aproveitaram os dados de 1999 a 2019 do Global Burden of Disease, um conjunto abrangente de estimativas das tendências de saúde em todo o mundo.

Nichols e a equipa descobriram que a os casos de demência vão passar de cerca de 57,4 (50,4 a 65,1) milhões globalmente em 2019 para uma estimativa de 152,8 (130,8 a 175,6) milhões em 2050, com os maiores aumentos observados no leste da África Subsaariana, Norte de África e o Médio Oriente.

A análise sugere ainda que os aumentos projetados de casos podem ser atribuídos em grande parte ao crescimento e envelhecimento populacional, embora a importância relativa desses dois fatores varie consoante a região do mundo.

Além disso, Nichols e a equipa previram a prevalência de demência atribuível ao tabagismo, ao índice de massa corporal (IMC) elevado e à glicose plasmática em jejum, usando a relação esperada entre esses fatores de risco e a prevalência de demência. E deram conta de um aumento de 6,8 milhões de casos de demência globalmente entre 2019 e 2050 devido especificamente às mudanças esperadas nestes fatores de risco.

Separada e inversamente, os investigadores descobriram que as alterações ao nível da educação levarão a um declínio na prevalência da demência, que afetará cerca de 6,2 milhões de pessoas globalmente entre 2019 e 2050. Juntas, essas tendências opostas estão perto de se equilibrar.

“Estas estimativas permitirão aos formuladores de políticas e tomadores de decisão entender melhor o aumento esperado no número de indivíduos com demência, bem como os impulsionadores desse aumento num determinado cenário geográfico”, explica Nichols.

“O grande aumento previsto no número de indivíduos com demência enfatiza a necessidade vital de pesquisas focadas na descoberta de tratamentos modificadores da doença e intervenções eficazes de baixo custo para a prevenção ou retardamento do início da demência.”

Recentemente publicado na revista Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association, o estudo usou o mesmo conjunto de dados para estimar que as taxas de mortalidade pela doença de Alzheimer aumentaram 38,0% entre 1990 e 2019.

“Sem tratamentos eficazes para parar, retardar ou prevenir a doença de Alzheimer e todas as demências, este número aumentará além de 2050 e continuará a impactar indivíduos, cuidadores, sistemas de saúde e governos em todo o mundo.”

“Além da terapêutica, é fundamental descobrir intervenções adaptadas culturalmente que reduzam o risco de demência através de fatores de estilo de vida, como educação, dieta e exercício”, acrescenta.

Quando a demência se manifesta cedo

Os dados sobre a demência de início precoce, uma forma de demência em que o início dos sintomas ocorre antes dos 65 anos, são extremamente limitados. Para entender melhor a incidência deste fenómeno, Stevie Hendriks, estudante da Universidade de Maastricht, na Holanda, e os colegas realizaram uma revisão sistemática de todos os estudos publicados durante os últimos 30 anos que relataram dados sobre quantas pessoas desenvolveram demência antes dos 65.

E descobriram que, no geral, a taxa de incidência global era de 10 novos casos a cada ano por 100.000 pessoas e que a incidência aumenta com a idade. Isso sugere que cerca de 350.000 pessoas em todo o mundo desenvolvem demência de início precoce todos os anos, com as taxas de incidência para homens e mulheres semelhantes e mais elevadas para a doença de Alzheimer, seguida da demência vascular e demência frontotemporal.

“As nossas descobertas devem aumentar a consciencialização dos profissionais de saúde, investigadores e legisladores, porque mostram que um número significativo de pessoas é afetado pela demência precoce todos os anos”, refere Hendriks. “Isso mostra a necessidade de investimento em cuidados de saúde personalizados para este grupo especial de pacientes e de mais pesquisas sobre como os podemos apoiar, mas também prevenir e tratar a demência de início precoce.”

“Pessoas que vivem com Alzheimer de início precoce enfrentam desafios únicos quando se trata de diagnóstico, da família, trabalho, finanças, cuidados futuros e possíveis opções de tratamento. Mas há suporte e informações disponíveis”, afirma Kristen Clifford, diretor de programa da Alzheimer’s Association International.