
Se tem doenças cardiovasculares ou fatores de risco para doenças cardiovasculares, provavelmente já ouviu falar sobre o risco acrescido de enfarte ou AVC. Mas sabia que a gripe pode aumentar substancialmente o risco de um evento cardíaco sério ou até fatal? Ou que levar a vacina contra a gripe pode reduzir substancialmente esse risco, mesmo que acabe por contrair este vírus sazonal?
A conclusão surge numa revisão realizada por especialistas do Houston Methodist, um hospital no Texas, EUA, e publicada no Journal of the American Heart Association.
“As pessoas com problemas cardíacos são particularmente vulneráveis a complicações cardíacas associadas à gripe”, confirma Priyanka Bhugra, especialista em medicina interna do Houston Methodist e principal autor do artigo.
É bem sabido que a gripe pode causar sintomas respiratórios importantes, como pneumonia, bronquite e infeção bacteriana nos pulmões. Os efeitos do vírus no coração têm sido historicamente mais difíceis de analisar, em parte porque muitos doentes já têm uma predisposição conhecida para eventos cardíacos e porque o evento cardíaco geralmente ocorre semanas após o início da gripe.
Mas um estudo recente revelou que as mortes cardiovasculares e epidemias de gripe aumentam na mesma época. E que os pacientes têm seis vezes mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco na semana após a infeção por influenza do que em qualquer momento durante o ano anterior ou após a infeção.
Num trabalho que analisou 336.000 internamentos hospitalares por gripe, verificou-se que 11,5% sofreram um evento cardíaco grave. Num outro estudo, que avaliou 90.000 infeções por gripe confirmadas em laboratório, verificou-se uma taxa muito semelhante (11,7%) dos que tiveram um evento cardiovascular agudo.
Um em cada oito pacientes, ou 12,5%, internados no hospital com gripe teve um evento cardiovascular, com 31% destes a necessitarem de cuidados intensivos e 7% a morreram como resultado do evento, descobriu outro estudo.
A razão pela qual a gripe causa tanto stress no coração e no sistema vascular tem a ver com a resposta inflamatória do corpo à infeção. A inflamação ocorre quando os “primeiros reagentes” do corpo, os glóbulos brancos e o que eles produzem para o proteger, se reúnem numa área e começam a trabalhar no combate a uma infeção, bactéria ou vírus. Quando a pessoa está doente, normalmente pode sentir os efeitos dessas “zonas de combate” através de inchaço, sensibilidade, dor, fraqueza e, às vezes, vermelhidão e aumento da temperatura das articulações, músculos e nódulos linfáticos.
O aumento da atividade também pode causar uma espécie de congestionamento, levando a coágulos sanguíneos, pressão arterial elevada e até inchaço ou cicatrizes no coração. Os stressores adicionados tornam a placa dentro das artérias mais vulnerável à rutura, causando um bloqueio que interrompe o fluxo de oxigénio para o coração ou cérebro e resulta em ataques cardíacos ou AVC.
Além disso, complicações não cardíacas associadas à doença viral, incluindo pneumonia e insuficiência respiratória, podem piorar muito os sintomas de insuficiência cardíaca ou arritmia cardíaca.
Resumindo, o stresse adicional causado ao sistema cardiovascular pode ser opressor para um músculo cardíaco já enfraquecido.
Como os vírus da gripe estão em constante mutação, os cientistas alteram a vacina a cada ano para corresponder às prováveis cadeias prevalentes. Em média, é eficaz na prevenção de infeções em 40% dos casos. E embora isso possa não parecer ótimo, é o suficiente para reduzir significativamente o risco de doenças graves na maioria das pessoas.
Ultimamente, os estudos têm conseguido mostrar que, não só a vacina é eficaz na proteção da população em geral e dos grupos com idade mais vulneráveis (acima de 65 e menos de 2 anos) de casos graves de gripe, mas também protege contra a mortalidade cardiovascular, sobretudo na população de alto risco.
Benefícios da vacina da gripe
As descobertas recentes incluem o facto de os adultos que receberam a vacina terem apresentado uma probabilidade 37% menor de serem hospitalizados por causa da gripe e 82% menor de serem admitidos na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) por causa da gripe.
Entre as pessoas internadas no hospital com gripe, os vacinados tiveram 59% menos risco de serem admitidos na UCI e aqueles que tinham a vacina e, ainda assim, foram internados nessa unidade, passaram nela quatro dias a menos do que os não vacinados.
A vacinação foi associada ainda a um menor risco de eventos cardiovasculares (2,9% vs 4,7%) se o doente tivesse gripe e, nas pessoas em que o risco de doença coronária era maior, a vacinação foi associada a resultados consideravelmente melhores.