A gravidez é sempre um momento de esperança, mas para as mulheres com doença cardiovascular, pode também ser um território de medo, dúvidas e decisões difíceis. Pela primeira vez, a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) fala diretamente a estas mulheres, para uma maior participação na tomada de decisões partilhadas.
Françoise Steinbach, membro do Fórum de Doentes da ESC e coautora das guidelines clínicas e da nova versão para doentes, afirma: “Estar grávida e ter doença cardiovascular causa stress e ansiedade adicionais, e a mãe precisa de cuidar da sua própria saúde, bem como de preservar o crescimento e a saúde do feto”.
“Estas novas orientações explicam o que uma mulher com doença cardiovascular deve fazer para prevenir problemas durante a gravidez e fornecem informações sobre o período pós-parto e os cuidados maternos a longo prazo. Para aquelas com doenças cardíacas genéticas, as orientações também oferecem orientações sobre o aconselhamento pré-concecional para que as mulheres possam tomar decisões bem informadas”, continua.
As guidelines para doentes recomendam que as mulheres com doenças cardiovasculares que tornam a sua gravidez de risco sejam avaliadas e acompanhadas por uma Equipa de Cardiologia da Gravidez desde o momento em que desejam engravidar, durante a gravidez e o parto, e também no período pós-parto.
O seguimento por uma Equipa Multidisciplinar de Cardiologia na Gravidez está associado a menores taxas de mortalidade materna, menores taxas de reinternamento hospitalar e, consequentemente, maior segurança para a doente. A equipa principal inclui um cardiologista, um anestesiologista, uma parteira, um obstetra e uma enfermeira clínica especializada. Dependendo do problema clínico, a equipa pode ser alargada para incluir outros profissionais de saúde, como um médico de clínica geral, um cirurgião, um intensivista e um geneticista.
“Com muita frequência, as mulheres que beneficiariam do atendimento por uma Equipa Multidisciplinar de Cardiologia na Gravidez não são referenciadas a tempo. Por outro lado, algumas mulheres são encaminhadas desnecessariamente, sobrecarregando estes serviços. Este guia define claramente quais as mulheres que devem receber atendimento por uma Equipa Multidisciplinar de Cardiologia na Gravidez”, explica Kristina Hermann Haugaa, co-presidente das guidelines clínicas e da versão para doentes, e Chefe do Ambulatório e da Unidade de Doenças Cardíacas Genéticas do Departamento de Cardiologia do Hospital Universitário de Oslo e da Universidade de Oslo.
As guidelines recomendam ainda que a equipa de saúde trabalhe num processo de tomada de decisão partilhada com a grávida para desenvolver um plano de parto personalizado. O plano deve definir se o trabalho de parto deve ser induzido, como o trabalho de parto e o parto devem ser conduzidos e qual a monitorização que a mãe pode necessitar após o nascimento do bebé.
Avaliações também da saúde mental
O parto vaginal deve ser encorajado para a maioria das mulheres com doenças cardiovasculares, uma vez que as complicações associadas ao parto vaginal são geralmente menores, de acordo com as guidelines. Uma cesariana pode, no entanto, ser recomendada em algumas situações específicas.
Após o parto, as guidelines recomendam que as mulheres com doenças cardiovasculares sejam submetidas a avaliações regulares de saúde mental pela sua equipa de saúde, para que quaisquer problemas sejam identificados precocemente e seja oferecido apoio personalizado. Observam que o risco de desenvolver depressão entre as novas mães na população em geral é de cerca de 10 a 20%, e este risco aumenta com condições de saúde subjacentes, como as doenças cardiovasculares.
“Como alguém que tem problemas cardiovasculares e já teve duas gravidezes, sei o quão importantes são estas orientações. Sinto-me particularmente motivada pela necessidade de apoio psicológico e de tomada de decisão partilhada para as grávidas afetadas por doenças cardiovasculares”, explica Françoise Steinbach, que tem um problema chamado Síndrome de Marfan, associado a problemas cardíacos. Teve um filho antes do diagnóstico, mas durante uma segunda gravidez foi-lhe diagnosticado um aneurisma da aorta muito grande, que exigiu cirurgia cardíaca durante a gestação.
Os médicos disseram que ela teria de considerar a possibilidade de interromper a gravidez. “O meu marido e eu fomos deixados sozinhos para tomar a decisão, ninguém explicou o que estava a acontecer e não foi oferecido apoio. No dia do aborto medicamentoso, ninguém falou comigo e senti-me tão sozinha e desesperada; foi o episódio mais traumático de toda a minha jornada médica. Espero que nenhuma mulher tenha de passar por um sofrimento como este novamente. As mulheres nesta situação precisam de mais humanidade e empatia e devem receber apoio psicológico, tanto para elas como para os seus parceiros.”
Mais grávidas com doenças cardiovasculares
Globalmente, o número de grávidas com doenças cardiovasculares está a crescer. Isto deve-se a uma série de fatores, como a idade materna mais avançada na primeira gravidez, o número crescente de mulheres com cardiopatia congénita que atingem a idade fértil e a prevalência crescente de comorbilidades cardiovasculares.
Julie De Backer, copresidente das diretrizes clínicas e da versão para doentes, cardiologista e geneticista clínica do Departamento de Medicina Interna e Pediatria da Universidade de Ghent, refere que “mais mulheres com doenças cardiovasculares identificadas estão a considerar a gravidez. Isto deve-se a vários fatores, como o aumento da sobrevivência até à idade adulta das mulheres que nasceram com problemas cardíacos, o maior número de mulheres que foram submetidas a transplante ou tratamento oncológico e o aumento do número de mulheres com doenças cardíacas adquiridas. Este guia oferece aos médicos claras e acessíveis, com base nas evidências mais recentes”.
As doenças cardiovasculares maternas são atualmente a principal causa de mortalidade não obstétrica nas grávidas, representando 33% das mortes relacionadas com a gravidez em todo o mundo, mas 78% das mortes relacionadas com a gravidez causadas por doenças cardiovasculares são evitáveis. Até 4% das gravidezes são complicadas por doenças cardiovasculares a nível global, chegando aos 10% quando incluídos os distúrbios de hipertensão arterial. Reduzir a mortalidade e a morbilidade materna é uma prioridade fundamental da Organização Mundial de Saúde.
A gravidez é um período de alto risco para as mulheres com doenças cardiovasculares, devido às alterações fisiológicas no coração e no sistema sanguíneo necessárias para satisfazer as maiores necessidades metabólicas da mãe e do feto. A partir da sexta semana de gestação, o volume sistólico e o débito cardíaco aumentam 30% a 50%, e a frequência cardíaca aumenta 10 a 20 batimentos por minuto. Nas mulheres com doença cardíaca, as adaptações necessárias do coração podem ser inadequadas e levar à insuficiência cardíaca e a taquiarritmias atriais e ventriculares.
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