A maioria da investigação sobre os efeitos do stress na saúde centra-se nos adultos, mas uma nova revisão, a mais abrangente deste tipo até à data, analisa como afeta especificamente as crianças. E encontra evidências de que o stress, que ocorre desde antes do nascimento até à adolescência, pode afetar várias doenças nas crianças, desde a asma e a saúde mental ao funcionamento cognitivo.
O stress pode ter impacto em muitas áreas simultaneamente, da saúde mental e física, à aprendizagem e atenção, comportamento e envolvimento com o sistema judicial, embora os seus efeitos sejam frequentemente estudados isoladamente.
As crianças expostas aos mesmos stressores podem apresentar resultados diferentes, influenciados por fatores como a idade, a regulação emocional, a relação com o cuidador e a qualidade da escola e do bairro. Ou ainda a saúde e o bem-estar dos cuidadores, que podem influenciar significativamente o impacto na criança.
As intervenções precoces na vida dos mais pequenos podem melhorar a sua saúde imediata e a longo prazo, além de reduzir os custos sociais e de saúde a longo prazo. Esta nova revisão analisou inquéritos de 153 fontes, abrangendo um período de 75 anos, para perceber quais os efeitos que a adversidade na infância t~em na saúde das crianças antes de atingirem a idade adulta.
“Não podemos esperar que os adultos tenham doenças cardíacas, cancro ou acabem na prisão ou nas ruas para questionar se o stress na primeira infância impactou os seus resultados”, refere a primeira autora da revisão, Nicki Bush, professora de Psiquiatria e Pediatria na Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF). “Podemos ver o impacto do stress nas crianças neste momento, e as evidências sugerem que, para algumas, devemos intervir imediatamente para prevenir doenças futuras.”
Invertendo a perspetiva
Historicamente, os estudos sobre fatores stressantes como o bullying ou o abuso infantil examinaram os resultados de saúde mental e física isoladamente. No entanto, o stress pode levar a piores resultados na saúde mental, no desenvolvimento, no comportamento e nas competências académicas e sociais, bem como nos indicadores físicos, tudo ao mesmo tempo.
Em parte, isto deve-se ao facto de os mecanismos biológicos através dos quais o stress impacta a saúde poderem afetar múltiplos aspetos. Por exemplo, os exames cerebrais mostram que os stressores na infância podem levar a volumes cerebrais mais pequenos, que estão relacionados com atrasos no desenvolvimento, problemas comportamentais e pior desempenho académico.
“Durante muito tempo, a investigação sobre o stress na infância considerou a saúde física e mental como entidades isoladas, mas, se queremos fazer uma diferença significativa na vida das crianças, precisamos de repensar como é que o stresse impacta a saúde geral da criança”, afirma Bush. “Muitos dos mesmos processos biológicos induzidos pelo stress que predizem a asma e a obesidade estão também associados à ansiedade, Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção e pior desempenho académico.”
O contexto é fundamental
Frequentemente, fatores fora do controlo da criança influenciam a sua resposta a diferentes níveis de stress, um ponto que carecia de provas rigorosas até recentemente, observa o estudo. Estes fatores incluem a idade da criança, o estádio de desenvolvimento, a sua capacidade de regular o stress, a família e a qualidade da escola e do bairro.
“É fundamental compreender como é que uma criança de 6 anos reage ao abuso infantil em comparação com uma de 14 anos”, explica a coautora Alexandra Sullivan, professora no Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da UCSF. “Novas pesquisas permitem-nos saber quais as intervenções e quando são mais eficazes para ajudar estas crianças a reduzir e potencialmente prevenir consequências adversas para a saúde.”
Experiências stressantes, como o bullying ou conflitos parentais, podem ter um impacto negativo na saúde, independentemente da origem da criança, mas a gravidade das consequências corresponde, geralmente, à gravidade do fator stressante. Além disso, o stress é distribuído de forma desigual. As crianças negras sofrem frequentemente mais stress devido ao racismo, e as crianças de famílias com baixos rendimentos sofrem mais devido à pobreza, revelam os investigadores.
Seja qual for a causa, intervir precocemente pode ajudar a reduzir as consequências adversas para a saúde e a prevenir doenças futuras em crianças que sentem stress, descobriram os investigadores. Notavelmente, um forte vínculo entre cuidador e criança é especialmente poderoso para atenuar esses efeitos.
“Os esforços para fortalecer o vínculo entre cuidadores e crianças, bem como para promover a saúde mental de adultos e crianças nos períodos pré e pós-natal, podem ter impactos profundos ao longo das gerações”, acrescenta Sullivan.
“Já não se trata de como os fatores stressantes, como o abuso infantil, afetam uma criança”, afirma Bush. “Temos ferramentas que podem ajudar imediatamente e ter um impacto duradouro, por isso vamos começar a fornecer a todas as crianças e famílias os recursos necessários para serem o mais saudáveis possível.”
Crédito imagem: Unsplash















