Como será o doente do futuro? A pergunta serviu de ponto de partida para um estudo, realizado pela New Angle, com contribuições de profissionais da indústria farmacêutica, que recolheu previsões sobre as características tipo de um doente, revelando uma mudança de paradigma fundamental em 2030: a pessoa deixa de ser “doente” para ser “alguém que não quer estar doente”.
Ou seja, para o indivíduo de 2030, o foco desloca-se da doença para a saúde, o que o leva a fazer escolhas constantes sobre sono, exercício e alimentação para evitar doenças. Torna-se alguém ativo, bem conectado e com melhor qualidade de vida, que vê a morte e a doença como algo cada vez menos natural, procurando ativamente a longevidade.
No entanto, a barreira económica ameaça dividir os doentes em dois tipos distintos, criando uma dualidade entre aqueles que têm acesso pleno a estas ferramentas de prevenção e longevidade e os que permanecem excluídos deste novo paradigma. Ao doente privilegiado, com acesso a serviços de saúde privados, altamente informado, com poder de compra para dispositivos de última geração, que procura ativamente longevidade (que o dinheiro pode comprar), junta-se um doente desfavorecido, com cada vez menos recursos, muita informação via redes sociais, mas sem capacidade de gestão, sujeito a cuidados demorados no setor público.
Um fosso que é também sociocultural, educacional e geográfico, o que se traduz no objetivo último: enquanto um procura longevidade, o outro procura sobrevivência.
No que diz respeito ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), o doente do futuro está frustrado, ainda que mais consciente e capacitado. A insatisfação com a prestação de cuidados de saúde em Portugal vai continuar a existir, mas uma maior consciência do contexto e acesso a dados dotam o doente de ferramentas que tornam mais fácil ultrapassar os vários obstáculos que se lhe colocam e que lhe permitem tomar decisões mais informadas e com mais confiança.
A medicina de precisão será cada vez mais uma realidade, ainda que se faça a duas velocidades: temos o doente cada vez mais ligado a dispositivos com dados de saúde física, mental, carga genética, ADN, etc., com acesso a recursos e diagnóstico rápido; e o doente que, apesar de ter acesso à informação, não tem fácil acesso a diagnóstico e tratamento, ficando perdido num “mar de informação” sem saída.
Tudo isto terá profundas implicações para os sistemas de saúde, mas também abrirá oportunidades importantes. O SNS poderá simplificar processos administrativos e integrar verdadeiramente a jornada do doente através de sistemas interoperáveis, conectando entidades públicas, privadas e sociais. Os percursos clínicos tornam-se mais otimizados, enquanto os profissionais de saúde evoluem para um papel mais estratégico: atuar como decisores e intérpretes em casos complexos, humanizando as escolhas clínicas.
Os prestadores de cuidados e demais stakeholders têm agora a responsabilidade de curar a informação que publicam, garantindo qualidade e rigor através de parcerias estratégicas. As associações de doentes podem liderar a capacitação digital dos utentes, preparando-os para navegar com confiança na era da informação e do acesso digital, o que implica desenhar serviços híbridos que combinem o presencial e o digital de forma integrada, com navegação assistida, literacia reforçada e contacto humano sempre disponível.
Por fim, a comunidade, farmácias, cuidadores, associações, pode assumir-se como ponte essencial: facilitando o acesso à informação, ajudando a descodificá-la e apoiando os doentes ao longo de toda a jornada de cuidados.
O estudo identifica ainda vários tipos de doentes: o idoso frágil, que vive, muitas vezes, em contexto de isolamento social, precisa frequentemente de apoio e sente-se inseguro quanto ao futuro, sobretudo se surgir uma doença grave, porque antecipa esperas longas e dificuldade de acesso; a pessoa com doença crónica, que usa intensivamente a tecnologia, mas vive vários dilemas na gestão da informação e dos dados; o “doente ideal”, que é informado, preventivo e exigente, vive numa relação estreita com a IA e com dados, mas continua a precisar de profissionais e de um ecossistema regulado e colaborativo para que esse potencial seja seguro e real e, finalmente, a “pessoa saudável” e hiperconectada, preventiva, informada e que procura ativamente o bem-estar e o controlo total sobre a sua saúde.
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