Cerca de 15% das mulheres têm pensamentos e comportamentos obsessivo-compulsivos de forma recorrente após o parto, revela um estudo nacional.

Ana Telma Pereira, investigadora do Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e primeira autora do trabalho, enfatiza a “alta percentagem” de mulheres com “sintomas clinicamente relevantes” de perturbação obsessivo-compulsiva (POC) identificada por este estudo, que envolveu 212 participantes, recrutadas maioritariamente na Maternidade Bissaya Barreto (Coimbra) e entrevistadas no sexto mês após o parto.

No total, 74,1% das inquiridas registaram pelo menos uma obsessão (pensamento ou imagem repetitiva, como o receio de deixar cair o seu bebé) e 41,5% apontaram pelo menos uma compulsão (comportamento repetitivo, como verificar repetidamente o bebé enquanto ele está a dormir). Só 24,1% não reportaram quaisquer obsessões ou compulsões.

Deteção precoce é fundamental

Realizado pelo Instituto de Psicologia Médica, no âmbito do projeto ‘Triagem, prevenção e intervenção precoce no sofrimento psicológico perinatal – efetividade de um novo programa na atenção básica’, financiado pela Fundação para Ciência e Tecnologia, o estudo revela que estas obsessões ou compulsões não significam, por si só, que as inquiridas sofram de perturbação obsessiva-compulsiva.

De facto, apenas 2,4% foram diagnosticadas como tal, já que o que distingue quem sofre de quem não sofre da doença não é o conteúdo dos pensamentos e comportamentos obsessivo-compulsivos, mas sim o seu caráter repetitivo, intrusivo e perturbador da vida quotidiana. No entanto, todos os sinais podem servir de alerta.

“É importante avaliar e detetar o mais atempadamente possível a presença de sintomas e os factores de risco em várias esferas da perturbação psicológica perinatal (como Perturbação Obsessivo-Compulsiva, depressão e ansiedade), até porque as consequências negativas não são apenas para a mulher, mas também para a descendência, podendo afetar o desenvolvimento dos filhos”, afirma Ana Telma Pereira.

Homens também sofrem de comportamentos obsessivo-compulsivos

No estudo, premiado com o Best Poster Award no World Congress on Women’s Mental Health, promovido pela Associação Internacional para a Saúde Mental das Mulheres, e agora em fase de publicação, o receio de deixar cair o bebé (49,5% das participantes), o medo de que ele morra durante o sono (49,1%) e o cuidado com a sua alimentação (47,2%) são apontados como as preocupações mais comuns.

Verificar repetidamente o bebé enquanto ele está a dormir (25,9%), lavar ou limpar repetidamente as mãos (18,9%) e procurar informação acerca da gravidez, parto e bebés de forma excessiva (15,6%) são os comportamentos mais
frequentemente registados. E 15,5% das inquiridas admitem gastar mais de uma hora por dia com estes pensamentos/comportamentos.

O trabalho é o primeiro a propor e aplicar uma versão portuguesa da Perinatal Obsessive-Compulsive Scale, o único instrumento utilizado a nível internacional para avaliar os sintomas da POC tendo em conta o contexto específico do período perinatal.

“Ainda não tinham sido estudadas outras versões para além da original (australiana). É um instrumento que nos vai permitir fazer uma avaliação rápida e válida dos sintomas, e sua gravidade e interferência, e do risco [de desenvolver Perturbação Obsessiva-Compulsiva] e está já a ser muito útil e bem aceite para fins clínicos e de
investigação”, refere Ana Telma Pereira.

Isso assume particular importância tendo em conta que, entre as doenças mentais comuns (como ansiedade, depressão e fobias), “a POC é a menos bem diagnosticada e a que leva mais tempo entre o primeiro sintoma e o pedido de ajuda”, esclarece António Ferreira de Macedo, diretor do Instituto de Psicologia Médica da FMUC e coautor do trabalho.

Por isso mesmo, o objetivo final da equipa de investigação é continuar a desenvolver ferramentas (de avaliação e de intervenção) para melhor acompanhar as potenciais pacientes com comportamentos obsessivo-compulsivos durante a gravidez e o pós-parto.

A decorrer está já um ensaio clínico que testa a eficácia de um programa de intervenção em grupo, baseado em terapias cognitivo-comportamentais, com exercícios de mindfullness e auto compaixão e, de futuro, fica a intenção de incluir os progenitores do sexo masculino nestas linhas de investigação. “É errado ficar com a ideia de que isto são coisas só das mulheres”, conclui Ana Telma Pereira.