Quem sofreu um problema cardíaco conhece as dificuldades e os desafios que se colocam no caminho para a recuperação. Um caminho que nem todos conseguem percorrer. De acordo com um novo estudo, aqueles que têm de lidar com depressão, ansiedade ou stress têm maior probabilidade de abandonar a reabilitação cardíaca.

O trabalho assinala o Dia Mundial da Saúde Mental, que se comemora esta quinta-feira e garante que “os doentes cardíacos que vivem com depressão têm mais probabilidade de se sentirem desanimados e sem esperança, o que reduz sua capacidade de gerir os seus sintomas”.

Angela Rao, especialista da University of Technology Sydney, na Austrália e autora do estudo, confirma que os problemas mentais “podem minimizar sucessos e exagerar falhas, reduzindo assim a motivação dos doentes para se exercitarem e concluírem um programa de reabilitação cardíaca”.

“A ansiedade pode levar ao medo de outro evento cardíaco e impedir que as pessoas sejam ativas.”

“Depressão e ansiedade podem também prejudicar a capacidade de reter novas informações necessárias para fazer mudanças de comportamento relacionadas com a saúde”, acrescenta.

Risco de deixar reabilitação cardíaca é maior

Após um enfarte ou procedimento para ‘limpar’ artérias bloqueadas, os doentes devem receber apoio para deixar de fumar, fazer exercício, melhorar a dieta, reduzir o stress e controlar a pressão arterial e o colesterol, o que é conseguido através da reabilitação cardíaca.

Este estudo retrospetivo examinou a prevalência e o impacto da depressão, ansiedade e stress em doentes que realizavam reabilitação cardíaca em dois hospitais de Sydney, entre 2006 e 2017, num total de 4.784 pessoas.

Destas, cerca de 18% apresentavam depressão, 28% lidavam com ansiedade e 13% com stress moderado a extremamente grave.

Os doentes com sintomas moderados de depressão, ansiedade ou stress tiveram um risco significativamente mais alto de deixar a reabilitação cardíaca, em comparação com aqueles com sintomas leves ou sem sintomas.

“A depressão pode diminuir as intenções positivas de fazer exercício, mesmo quando se recebe apoio de profissionais de saúde e se está ciente dos benefícios”, afirma Rao.

Um círculo vicioso de problemas mentais

Depressão, ansiedade e stress parecem ‘alimentar-se’ uns aos outros, revela ainda o estudo. Ou seja, os doentes com ansiedade ou stress tinham uma probabilidade mais de quatro vezes superior de ficarem deprimidos do que os que não tinham. A ansiedade foi três vezes mais comum em doentes com depressão e mais de cinco vezes mais frequente naqueles com stress.

“Estas relações eram independentes da idade, sexo, características clínicas, uso de medicamentos e qualidade de vida”, refere a especialista.