
A gripe sazonal é a causa de morte de cerca de 600.000 pessoas por ano em todo o mundo e tem uma história de pandemias secular. Exemplos incluem a gripe espanhola, nos finais dos anos 1910, e a H1N1, em 2009, que juntas custaram mais de 50 milhões de vidas. “A forma como o palco está montado diz-nos que não é uma questão de se, mas sim de quando haverá uma nova pandemia. E prepararmo-nos para isso exige investigação fundamental intensiva e constante acumulação de conhecimento sobre estes vírus e as doenças que causam”, diz Maria João Amorim, investigadora principal do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) e líder da equipa que realizou um estudo sobre o tema.
Quando um vírus como o influenza entra nos nossos pulmões, rapidamente enfrenta cocktails de moléculas que o reconhecem e alertam o hospedeiro da sua presença. Sinais fluem de volta e ativam a resposta imune, convocando um exército de células e ajudantes inflamatórios.
Qualquer exagero pode destabilizar o equilíbrio necessário para eliminar o vírus e poupar os nossos tecidos de danos. Para a maioria das pessoas, eliminar o vírus influenza consegue-se poucos dias após a infeção e deixa poucos vestígios. Mas para algumas, implica complicações severas, que resultam de uma resposta exagerada que danifica os pulmões.
“Descobrimos que a DAF, que significa decay accelerating factor, agrava a infeção com influenza A e aumenta os danos nos pulmões em ratinhos. Este mecanismo de virulência do influenza, e a regulação molecular que o sustenta, são algo novo para nós”, revela Maria João Amorim.
A DAF é um recetor que se encontra na superfície da maioria das células e que funciona para as proteger do ataque de um dos nossos próprios sistemas imunes de vigilância – o complemento. Este sistema protege-nos de patógenos invasores, assim que os deteta em circulação, inativando-os, ou dentro de células infetadas, montando uma estratégia para as eliminar.
“Mas isto pode funcionar como uma faca de dois gumes porque, se o complemento destrói células do hospedeiro, há o perigo associado de provocar danos em excesso através da eliminação de demasiadas células adjacentes e promoção de inflamação. Na verdade, a severidade da doença tem sido associada tanto à falta como ao excesso de ativação do complemento, que é sintonizado por reguladores como a DAF”, comenta Nuno Santos, primeiro autor do estudo.
Contrariamente ao esperado, a equipa de investigadores observou que o vírus influenza A tira partido da DAF para potenciar a ativação do complemento como uma forma de evasão ao sistema imune, aumentando o recrutamento de células imunitárias. “Ao fazê-lo, pode exacerbar a resposta imune, e isto é o que danifica os pulmões. Notavelmente, isto acontece de uma forma que é independente da carga viral, o que nos diz que afeta diretamente a resiliência à infeção”, explica Zoé Vaz da Silva, coautora do artigo.
O papel da DAF perante uma infeção pelo vírus da gripe pode depender da forma como interage com algumas partes do vírus, agravando mais ou menos a resposta.
“O sistema do complemento é importante, mas não é o único componente que determina o desenlace da infeção. Estas interações têm implicações funcionais e são uma forma sem precedentes de um vírus modular a resposta imune, através da alteração de uma proteína do hospedeiro a partir do interior da célula infetada. Estudar isto em maior profundidade no futuro é crucial”, diz Maria João Amorim.
Este estudo destaca uma nova estratégia de evasão imune do vírus influenza A e sublinha a importância do equilíbrio da resposta imunitária perante infeções virais, que permite eliminar a doença sem causar danos. Apesar do seu papel intrínseco protetor, o sistema imune pode ser a causa de complicações severas durante a infeção com o vírus influenza A.