Fumar não é social e leva ao aumento da solidão, revela um amplo estudo realizado em toda a Europa e apresentado no Congresso da Sociedade Respiratória Europeia (ERS), que decorreu em Barcelona, Espanha.
“Embora saibamos que fumar faz mal à saúde física, não sabemos o que isso causa à nossa saúde social. Pesquisas anteriores sugeriram que a solidão leva ao tabagismo, mas houve muito pouca investigação a investigar se fumar conduz à solidão”, refere Keir Philip, professor de Medicina Respiratória no Instituto Nacional do Coração e Pulmão do Imperial College London, Reino Unido.
“Fumar tem sido considerado uma ‘atividade social’, mas vemos regularmente pessoas com doenças relacionadas com o tabagismo a tornarem-se cada vez mais isoladas socialmente e solitárias. O nosso primeiro estudo em Inglaterra sugeriu que as pessoas que fumavam se tornavam mais solitárias do que as que não fumavam, mas era possível que os resultados fossem influenciados pela cultura e pelas normas sociais. Queríamos investigar se observaríamos a mesma relação entre o tabagismo e a solidão também noutros países.”
Os investigadores analisaram então dados de mais de 50.000 pessoas, em 15 países, e mediram o nível de solidão dos participantes através de uma escala que fornece uma pontuação de solidão com base na frequência com que uma pessoa sente falta de companhia, se sente excluída e isolada dos outros. Depois, compararam fumadores com não fumadores e realizaram um seguimento com o mesmo questionário dois anos mais tarde.
Maior solidão entre os fumadores
O estudo verificou que os fumadores eram mais solitários em comparação com os não fumadores, mesmo após considerarem outros fatores que poderiam influenciar os resultados, como a idade ou o sexo. As pessoas que fumavam também apresentaram maiores aumentos de solidão ao longo do tempo, mesmo após a consideração de dados demográficos e do seu nível inicial de solidão.
“O tabagismo está associado a um aumento da solidão nos idosos, sugerindo que fumar pode influenciar os resultados. Pode prejudicar a saúde psicossocial, além dos efeitos físicos. Estas descobertas corroboram e ampliam a investigação anterior e mostram que a relação é amplamente consistente em toda a Europa”, explica Philip, que acrescenta que um mecanismo provável para o justificar é que as doenças progressivas relacionadas com o tabagismo limitam a mobilidade, dificultando o acesso e a participação em atividades sociais.
E acrescenta: “Outro mecanismo potencial está relacionado com as normas sociais associadas ao fumo na presença de outras pessoas. As proibições de fumar em locais públicos e os ambientes informais livres de fumo nas habitações podem tornar estes locais menos atrativos para os fumadores, o que poderá limitar o potencial de interações sociais”.
Philip acredita que os próximos passos são mudar a narrativa pública para que esta esteja alinhada com os dados, o que passa pela divulgação, através de diversos meios, dos impactos psicossociais do tabagismo.
O professor Des Cox, membro do Conselho de Defesa da Sociedade Respiratória Europeia e professor do University College Dublin, na Irlanda, que não participou na investigação, considera que “esta é uma informação importante para quem fuma. É vital apoiar as pessoas a deixar de fumar sem as estigmatizar. Do nível individual ao político, estas descobertas demonstram que, para além de prejudicar a saúde física, o tabagismo parece prejudicar aspetos da saúde psicossocial. A ideia de que fumar possa ser ‘social’ deve ser questionada, pois as evidências indicam o contrário”.
“Com a solidão agora reconhecida como um dos principais desafios de saúde pública da nossa época, esta investigação identifica o tabagismo como um importante factor de risco para a solidão, e é um factor para o qual existem tratamentos eficazes. Precisamos de fazer tudo o que pudermos para ajudar os fumadores a deixar de fumar e garantir que os jovens não se tornam dependentes da nicotina”, conclui,
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