Há quem defenda que ter o animal de estimação a partilhar a cama com os humanos é uma má ideia. Além de ocupar espaço ou provocar alergias, acreditava-se que o companheiro peludo iria perturbar o sono. Mas um novo estudo, publicado na revista Sleep Health, conta uma história diferente.

Investigadores do Laboratório de Psicologia em Saúde Pública Pediátrica (PPHP) da Universidade de Concordia, no Canadá, descobriram que a qualidade do sono de um número surpreendentemente alto de crianças que partilham a cama com os seus animais de estimação é indistinguível daquelas que dormem sozinhas.

“Dormir com o animal de estimação não parece perturbar o sono“, refere a principal autora do artigo, Hillary Rowe. “Na verdade, as crianças que costumavam dormir com os seus animais de estimação afirmavam ter uma qualidade de sono melhor.”

Os dados que os especialistas usaram tiveram por base o Projeto Coração Saudável, um estudo longitudinal financiado pelos Institutos Canadianos de Pesquisa em Saúde, que explora as ligações entre o stress infantil, o sono e o tempo circadiano.

As crianças e os pais responderam a questionários sobre as rotinas da hora de dormir e higiene do sono: manter uma hora de dormir consistente, ter uma rotina pré-sono relaxante e dormir num espaço confortável e silencioso. 

Ao longo de duas semanas, as crianças usaram wearables (aparelhos de pulso) e preencheram registos diários para monitorizar o seu sono. E foram também equipadas com um dispositivo de polissonografia doméstica especializado por uma noite, para permitir que os investigadores registassem as suas ondas cerebrais (sinais de EEG) enquanto dormiam.

“Uma das perguntas sobre a higiene do sono era se partilhavam a cama com um animal de estimação”, diz McGrath. “Ficamos surpreendidos ao descobrir que uma em cada três crianças respondeu sim!”

Após esta descoberta, procuraram ver o que a literatura existente dizia sobre o tema da partilha da cama com animais e encontraram alguns estudos com adultos, mas quase nada com jovens.

“Dormir juntamente com um animal de estimação é algo que muitas crianças estão a fazer e não sabemos como influencia o seu sono”, acrescenta Rowe. “Então, do ponto de vista da ciência do sono, achamos que isso era algo importante e que deveríamos examinar.”

A ligação com o animal de estimação

Os investigadores classificaram as crianças num de três grupos com base na frequência com que dormiam com o seu animal de estimação: nunca, às vezes ou frequentemente. E compararam os três grupos numa ampla gama de variáveis ​​de sono para ver se havia alguma diferença significativa entre eles.

“Dados os objetivos maiores do Projeto Coração Saudável, fomos capazes de não apenas observar a hora de dormir e a quantidade de tempo de sono (duração), mas também quanto tempo demoraram a adormecer (latência), despertares noturnos (interrupções) e a qualidade do sono”, explica McGrath.

Resultado: os três grupos eram geralmente semelhantes em todas as dimensões do sono.

“As descobertas sugerem que a presença de um animal de estimação não teve impacto negativo no sono”, observa a especialista. “Na verdade, descobrimos que as crianças que dormiam com os seus animais de estimação relataram maior perceção de qualidade do sono, sobretudo entre os adolescentes.”

Por isso, a investigadora levanta a hipótese de que as crianças são mais propensas a considerar os animais de estimação como seus amigos e obter conforto ao dormir com eles.