Conscientes de que as transfusões de sangue são um recurso importante para os sistemas de saúde, investigadores norte-americanos quiseram olhar para o grau de necessidades não satisfeitas no que diz respeito às transfusões de sangue em todo o mundo. E concluíram que dos 195 países avaliados, 119 (61%) não tinham sangue suficiente para dar resposta às necessidades existentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que, para cada 1.000 pessoas, seja qual for o país, são necessários dez a 20 dadores para que se obtenha o sangue necessário. Contas feitas, os investigadores verificaram que as unidades totais de sangue chegaram, em 2017, aos 272 milhões.

No entanto, nesse mesmo ano, a procura global total foi de aproximadamente 303 milhões de unidades, o que dá conta da existência de um déficit de cerca de 30 milhões de unidades de sangue.

Países mais pobres com mais necessidades

Os países com mais baixos rendimentos apresentaram uma procura relativamente baixa em comparação com os países mais ricos, o que pode ser atribuído a uma menor carga de doenças associadas a lesões e doenças crónicas. No entanto, também estes países tinham déficits de oferta. 

Na maioria dos países mais ricos, foi possível dar resposta à procura. A Dinamarca, por exemplo, surge como um dos países com maior reserva de todos os três componentes sanguíneos, com 14.704 unidades de produtos sanguíneos por 100.000 pessoas.

Já o Sudão do Sul apresentou a menor oferta, com 46 unidades por 100.000 pessoas. E, aqui, as necessidades eram 75 vezes maiores que a oferta.

Madagáscar apresentou a segunda maior escassez, com a procura a superar a oferta em 26 vezes, enquanto a Índia revelou ter a maior escassez absoluta.

Garantir o acesso a sangue

Não só a oferta e procura de unidade de sangue é diferente consoante os países, como é diferente também o que motiva a sua necessidade.

De acordo com o estudo, nos países mais ricos, são sobretudo as lesões e doenças cardiovasculares que mais motivam a procura por sangue.

Na Europa Central, quase 30% das transfusões eram motivadas pelo tratamento de lesões e mais de 20% eram por doenças cardiovasculares, enquanto na África subsaariana e na Oceânia, mais de 20% das transfusões foram destinadas às doenças respiratórias e tuberculose.

Thierry Burnouf, da Universidade de Medicina de Taipei, comentou os resultados do estudo, afirmando que “este estudo é um lembrete de que é necessário uma oferta de sangue seguro e suficiente para fabricar produtos terapêuticos únicos baseados em células ou proteínas”.

“As diferenças substanciais na disponibilidade, segurança e qualidade do sangue ainda existem em todo o mundo”, acrescenta, reforçando a necessidade de “estratégias abrangentes” para que “o acesso dos doentes às terapias para salvar vidas melhore gradualmente”.