As evidências são cada vez maiores: os cuidadores de pessoas com doenças cardiovasculares estão em risco de sofrerem, também eles, do mesmo tipo de problemas.

Na Europa, os dados revelam que quase metade dos cidadãos desempenha papéis de cuidadores, fornecendo apoio essencial e raramente remunerado a familiares ou amigos doentes. Cerca de 40% dos cuidadores, dos quais mais da metade são mulheres, dão conta de níveis elevados de stress psicológico, emocional, físico, social e financeiro, decorrente do seu papel de cuidador.

Fatores que podem contribuir para um maior risco de doenças cardiovasculares entre os próprios cuidadores.

No entanto, poucas abordagens têm sido eficazes na redução deste stress, ainda que as necessidades tenham tendência a aumentar, tendo em conta o envelhecimento da população, o tempo de hospitalização cada vez mais reduzido e o aumento dos fatores de risco.

“É bastante claro que os cuidadores precisam de ser melhor apoiados!”, refere Heather Tulloch, especialista da Divisão de Prevenção e Reabilitação Cardíaca do Instituto do Coração da Universidade de Ottawa, Canadá.

Karen Bouchard, primeira autora do estudo e pós-doutorada em medicina comportamental, não tem dúvidas que “os cuidadores são essenciais para a gestão da saúde cardiovascular dos doentes e são um recurso inestimável para a saúde. Os indivíduos que cuidam dos seus parceiros podem ter um risco cardiovascular adicional, um risco que deve ser reconhecido e ao qual devemos responder”.

Cuidadores cuidam menos da sua saúde

Publicado no Canadian Journal of Cardiology, o estudo analisa as evidências dos campos da psicologia da saúde e da ciência dos relacionamentos e destaca os fatores diretos (por exemplo, fisiológicos) e indiretos (por exemplo, comportamentais e emocionais) que vinculam a angústia do cuidador ao seu próprio risco cardiovascular.

Por exemplo, os cuidadores são mais propensos a continuar a fumar e menos propensos a atividade física do que os indivíduos que não prestam assistência ou o fazem de forma esporádica.

As suas dietas tendem a ter elevada quantidade de gordura saturada, levando a maiores índices de massa corporal, gastam menos tempo a participar em atividades de autocuidado e relatam maus comportamentos preventivos de saúde.

Têm também mais distúrbios do sono e demonstram pouca adesão à medicação. Os cuidadores do cônjuge têm ainda níveis mais elevados de sintomas depressivos, carga física e financeira, tensão no relacionamento e níveis mais baixos de bem-estar psicológico em comparação aos restantes cuidadores.

Os investigadores dão conta de que o risco de hipertensão e síndrome metabólica pode estar diretamente relacionado com o cuidado de alta intensidade, definido como o fornecimento de mais de 14 horas de cuidados por semana, ao longo de dois anos consecutivos.

Apoios são necessários e urgentes

Não restam, por isso dúvidas que a saúde cardiovascular do doente e do cuidador pode ser melhorada, melhorando a qualidade da relação doente-cuidador.

“Os efeitos prejudiciais da experiência de cuidar são maiores entre os cuidadores de meia-idade, conhecidos como ‘geração sanduíche’, porque equilibram compromissos de trabalho remunerado e relacionamentos interpessoais com tarefas de prestação de cuidados a pais, filhos e/ou parceiros”, refere Monica Parry, especialista da Universidade de Toronto, Canadá, num editorial que acompanha o estudo.

De acordo com a especialista, homens e mulheres lidam de maneira diferente com o cuidado e, à medida que o cenário de doenças cardíacas nas mulheres muda, deve também mudar a nossa abordagem e compreensão das experiências de cuidado dos homens.

Por exemplo, os cuidadores masculinos podem ter dificuldades com as visões sociais do cuidar, sentirem-se, por vezes, invisíveis e podem não ter certeza de como assimilar o papel de cuidar, a masculinidade e o acesso à ajuda de que necessitam.

“Estamos a enfrentar uma epidemia de sobrecarga nos cuidadores, que não podem permanecer subinvestigados, subdiagnosticados, subtratados e/ou subapoiados.”