O papilomavírus humano (HPV) é responsável pelo aumento da incidência de cancros da cabeça e pescoço, sobretudo os da orofaringe. Agora, um grupo de investigadores determinou que o ADN deste HPV pode ser detetado na saliva da maioria dos doentes no momento do diagnóstico. Um trabalho que destaca este rastreio, que tem o potencial de salvar vidas com base na saliva.

Em alguns países, incluindo os Estados Unidos, o cancro da cabeça e pescoço, e sobretudo o cancro da orofaringe, superara o cancro do colo do útero como o mais comum causado pelo HPV e os doentes costumam ser diagnosticados numa fase avançada.

Nos estágios iniciais, são tumores difíceis de localizar através de estudos de imagem ou exame físico. Isto porque a orofaringe é de difícil acesso e a deteção é ainda mais complicada se essas lesões menores estiverem escondidas nas fendas das amígdalas, o que pode levar a que estes tumores causem metástases numa fase inicial.

“Apesar do aumento dos casos de cancro da cabeça e pescoço impulsionado pelo HPV, não existem métodos de deteção precoce ou estratégias de rastreio para esse tipo de cancro, ao contrário do cancro do colo do útero, que é causado pelo mesmo vírus. Biomarcadores que permitam a deteção precoce, monitorização e prognóstico das doenças são importantes para combater a incidência crescente de cancros da orofaringe impulsionados pelo HPV”, observa o investigador principal Chamindie Punyadeera, doQueensland University of Technology, na Austrália, um dos autores do estudo publicado no The Journal of Molecular Diagnostics, .

Punyadeera e os colegas investigaram a eficácia da deteção de HPV na saliva e o seu impacto na sobrevivência dos doentes. Para isso, realizaram o teste de saliva em 491 pessoas no momento do primeiro diagnóstico de cancro da cabeça e pescoço e em 10 pessoas com este tipo de cancro recorrente. Ao todo, 43% testaram positivos para ADN de HPV na saliva.

O HPV16, uma estirpe de alto risco do vírus, foi detetado em 92% das amostras de saliva positivas para HPV. A grande maioria surgiu na orofaringe, sobretudo nas amígdalas e na base da língua, confirmando que a orofaringe é o ‘hotspot’ para estes tumores.

De resto, 72% dos doentes com cancro da orofaringe testaram positivos para o ADN do HPV na saliva, descobertas que confirmam a utilidade do teste de saliva como um biomarcador para facilitar a deteção precoce e a triagem destes doentes.

“Quando são consideradas a natureza não invasiva e a conveniência da recolha, o teste de HPV salivar é um modo ideal de triagem para os indivíduos assintomáticos e a monitorização de longo prazo dos doentes com cancro da cabeça e pescoço direcionado ao HPV”, refere o médico. “As nossas descobertas indicam que, num futuro próximo, o teste salivar de HPV irá tornar-se parte da gestão clínica de rotina para os doentes com cancro da orofaringe direcionado para o HPV.”

Um teste que, segundo o co-investigador Sarju Vasani, da Faculdade de Medicina da Universidade de Queensland, “tem o potencial de personalizar a seleção do tratamento e auxiliar na avaliação do prognóstico da doença. Pode ajudar-nos a selecionar doentes para tratamento adjuvante e alertar sobre a recorrência antes que a imagem ou o exame clínico detete qualquer anormalidade específica. É apenas uma questão de tempo antes que estes biomarcadores sejam traduzidos dos ambientes de pesquisa para a prática clínica”.