
Uma investigadora em farmacologia do New York Institute of Technology College of Osteopathic Medicine é coautora de um estudo onde se argumenta que uma especiaria comummente encontrada no caril tem o potencial de melhorar os tratamentos para o cancro do ovário.
O cancro do ovário é o terceiro cancro ginecológico mais comum entre as mulheres em Portugal, com uma estimativa de mais de 500 a receberem um novo diagnóstico todos os anos.
Infelizmente, a taxa de sobrevivência não é muito elevada e, para complicar ainda mais a situação, o diagnóstico pode ser muito desafiante, já que os sintomas são frequentemente vagos, confundindo-se com os de outras condições médicas comuns, não existindo atualmente nenhum teste de rastreio.
O tratamento consiste tipicamente em cirurgia e quimioterapia, mas os medicamentos aqui usados podem ter efeitos secundários duros, como a queda de cabelo e vómitos. Além disso, o cancro do ovário nas suas fases posteriores tende a desenvolver resistência à quimioterapia, tornando os tratamentos menos eficazes e, por sua vez, piorando o prognóstico do doente.
Agora, num novo artigo de revisão médica publicado na revista Pharmacy Times, a professora Maria Pino e alguns colegas discutem o que deve levar a comunidade de investigação do cancro a explorar os benefícios da curcumina picante no tratamento do cancro do ovário.
A curcumina é um composto dourado e natural derivado da curcuma, uma planta da família do gengibre que é talvez mais conhecida como um ingrediente da especiaria do caril. O composto tem sido utilizado na medicina Ayurveda e chinesa há milhares de anos e, mais recentemente, ganhou atenção na medicina ocidental como um potencial supressor de tumores.
De facto, o National Institutes of Health, National Cancer Institute observa que os ensaios clínicos em fase inicial utilizando produtos contendo curcumina produziram resultados promissores quando usados em combinação com tratamentos para o cancro do cólon, cancros orais e hepáticos.
“O interesse pela curcumina veio dos estudantes que orientei. Percorremos várias publicações sobre esta especiaria para gerir as condições inflamatórias e a sua ação como antioxidante”, diz Maria Pino, que é especialista em farmacologia e toxicologia.
E que dá nota que a curcumina oferece diversos benefícios terapêuticos, incluindo efeitos anti-inflamatórios e analgésicos, com poucos efeitos secundários negativos. Os investigadores também documentam estudos existentes sobre células cancerígenas dos ovários e cancro em animais, tendo descoberto que a curcumina ajudou a suprimir a propagação e crescimento de células tumorais.
“A curcumina, quando combinada com quimioterapia, é mais suscetível de aumentar o efeito sinérgico das células cancerígenas para a terapia medicamentosa. A adição desta fitoquímica à atual quimioterapia do cancro do ovário pode aumentar a citotoxicidade dos fármacos enquanto inverte a resistência às terapias.”
Por outras palavras, quando a curcumina é utilizada juntamente com a quimioterapia, os doentes com cancro do ovário podem responder melhor aos tratamentos.
“Tratar este cancro é um desafio. Os medicamentos quimioterápicos padrão têm muitos efeitos adversos e sei disso pela minha experiência no tratamento de doentes”, diz Pino. “O que achei interessante é que existem alguns estudos que demonstram que a adição de curcumina reduziu estes efeitos adversos dos medicamentos.” Resultados que, acrescenta, merecem investigação científica adicional.
“Serão necessários mais estudos para ver se a curcumina pode melhorar consistentemente o padrão do tratamento do cancro no ovários e, em caso afirmativo, em que dose”, conclui.