
Está provado que os insetos são uma fonte de alimentação não só saudável, mas amiga do ambiente. Então porque é que não os comemos? E como é que as pessoas no mundo ocidental podem ser convencidas a comê-los?
No oriente, o seu consumo é comum. Contas feitas, dois mil milhões de pessoas em todo o mundo já o fazem. E não é para menos: a sua criação usa menos terra, energia, água e produz menos gases com efeito de estufa do que as carnes tradicionais, como frango e vaca. Mais ainda, 80 a 100% do seu corpo é digerível, comparando com apenas 40% da carne bovina.
O problema é mesmo o fator “repugnância”. Surge, então, a questão: tendo em conta os seus enormes benefícios, como podemos convencer as pessoas a superar esta aversão?
Tilly Collins, especialista do Centro de Política Ambiental do Imperial College London (ICL), tem vindo a investigar essa questão há algum tempo e um dos seus artigos mais recentes sobre o tema, escrito em parceria com uma ex-aluna do Mestrado, Pauline Vaskou, será publicado numa edição especial do Annals of the Entomological Society of America.
“Os argumentos nutricionais não foram suficientes para superar o fator repugnância para os consumidores ocidentais, mas o interesse em comer insetos está a aumentar nestes países – pelo menos em termos de conceito”, refere Tilly Collins.
“Agora é hora de capitalizar o interesse que borbulha na superfície. Investigações mostram que há uma oportunidade real de mercado nos produtos alimentícios à base de insetos.”
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O trabalho não é novo. Já foi feito para outro alimento, a lagosta. Sim, leu bem. A lagosta era, no século XIX, o alimento dado aos escravos e prisioneiros americanos. Era considerada grosseira, muito parecida com insetos e foi graças à Segunda Guerra Mundial que teve a sua grande oportunidade, por ser uma fonte de proteína que não era racionada, lê-se num artigo do ICL.
Também o sushi tem visto a conquistar cada vez mais adeptos, depois de, inicialmente, a ideia de comer peixe cru ser repugnante para muitos.
“Uma das coisas que torna o sushi popular é a sua adaptabilidade”, explica Collins. “Há pontos de venda de alta qualidade, mas também opções acessíveis e flexíveis, comercializadas para os jovens”, acrescenta.
É este o caminho que os insetos alimentares podem trilhar, acredita a especialista, que considera que quanto menos visíveis forem os insetos, melhor. Por exemplo, em forma de snacks ou barras energéticas.
Começar pelas crianças
Outro caminho passa pelas crianças. Tilly Collins é uma das primeiras investigadoras a fazer pesquisas de mercado com crianças. E descobriu que os mais pequenos com idades entre os seis e os 11 anos têm mais probabilidade de ingerir insetos e influenciar positivamente os seus pares.
Ou seja, a educação o mais cedo possível pode fazer crescer uma geração já se sente confortável com a ideia de comer insetos, para além de ser uma alternativa aos snacks açucarados, que contribuem para o aumento dos níveis de obesidade.
No caso dos adultos, se o argumento da sustentabilidade e da riqueza nutricional não são convincentes o suficiente, talvez o do preço seja. É que quanto mais se consome carne tradicional, mais provável é que o seu preço aumente, à medida que se torna mais insustentável.