Um novo neuroestimulador, aprovado para uso humano na Europa em janeiro deste ano e que permite gerar, em simultâneo, estímulos e efetuar a leitura do sinal cerebral nas zonas profundas do cérebro, foi implantado num doente com epilepsia no Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ). Trata-se da primeira vez a nível mundial que este modelo de neuroestimulador é implantado e usado na monitorização contínua de longo termo (uma semana) de um doente epilético.

A estimulação cerebral profunda (DBS, sigla em inglês Deep Brain Stimulation) em epilepsia já é utilizada há alguns anos em algumas situações, mas tem sido feita deforma “cega”.

Ou seja, “sabemos que grande parte dos casos (cerca de 60%) beneficia de alguma forma da DBS, mas que apenas uma pequena parte (cerca de15%) deixa de ter crises epiléticas com esta terapia e não sabemos porquê”, explica em comunicado João Paulo Cunha, coordenador do Centro de Investigação em Engenharia Biomédica do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

“Na verdade, não existe um entendimento do modo de ação da estimulação nos circuitos neuronais dos doentes e, por isso, é necessária muita investigação, que pode ser realizada, por exemplo, através desta nova tecnologia de neuroestimulação lançada no início deste ano”, acrescenta.

A comunidade médica tem, assim, procurado evidências de que é possível alargar e melhorar a utilização desta técnica baseando a estimulação na informação que é possível ler no cérebro, enquanto a terapia é administrada. Foi o que foi testado recentemente no Porto, com um doente epilético, o primeiro no mundo a ser implantado com este novo neuroestimulador dofabricante americano e a ser monitorizado em contínuo numa unidade de internamento especializada durante vários dias.

Estreia na epilepsia

“Pela primeira vez, com este neuroestimulador, conseguimos medir alterações dos sinais elétricos nas zonas profundas do cérebro e à superfície (usando Eletroencefalografia convencional), e medir os movimentos induzidos por eventos epiléticos em 3D (utilizando a tecnologia 3D vídeo-EEG, desenvolvida pelo INESC TEC) à medida que programávamos diferentes níveis de estimulação cerebral”, refere João Paulo Cunha.

“Também procurámos averiguar que tipo de atividade elétrica medida por este novo neuroestimulador nos pode ajudar a melhor detetar, ou até prever, a ocorrência de crises epiléticas”, refere o especialista. “Com este novo neuroestimulador poderemos deixar este paradigma “cego” e avançar para novas abordagens de estimulação “adaptativa” ou “reativa”, o que poderá fazer toda a diferença na qualidade de vida dos doentes.”

O sistema foi implantado num doente com epilepsia crónica e incapacitante, resistente ao tratamento com fármacos antiepiléticos, que “não é bom candidato a uma cirurgia ressectiva (ou seja, de remoção de lesão). Para este tipo de doentes, a neuroestimulação é a melhor hipótese de melhorar o controlo da epilepsia”.

Ricardo Rego, coordenador da Unidade de Monitorização de Epilepsia do Serviço de Neurologia do CHUSJ e do Centro de Referência de Epilepsia Refratária, tem esperança “que esta nova geração de neuroestimuladores possa vir a ser mais eficaz do que as atuais, uma vez que a médio prazo seremos capazes de modular os parâmetros elétricos de estimulação de forma bem individualizada”.

Os dados obtidos durante uma semana de monitorização irão agora ser objeto de estudo aprofundado nos próximos meses, por forma a estudar todas as componentes: estimulação, sinais cerebrais profundos, sinais cerebrais superfície (EEG) e movimento 3D do doente, por uma equipa pluridisciplinar.

Os serviços do CHUSJ preveem implantar mais neuroestimuladores iguais noutros doentes e existe ainda uma forte colaboração nesta área, com o Hospital Universitário de Tampere, na Finlândia e com o Hospital Universitário de Munique, na Baviera, que permitirá elevar muito o número destes casos para acelerar a descoberta de novas terapias de estimulação adaptativas em epilepsia.