
Celebra-se, de 18 a 24 de novembro, a Semana Mundial de Sensibilização para as Resistências aos Antimicrobianos, uma iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que este ano se baseia no mote ‘Espalhe a Consciencialização, Pare a Resistência’ (‘Spread Awareness, Stop Resistance’), e pretende alertar toda a população – desde políticos, profissionais de saúde e público em geral-, para a resistência aos antibióticos. No iMM, há um grupo de investigadores nacionais que o está a fazer.
Vírus, bactérias, e fungos têm capacidade de adaptação pela ocorrência de alterações genéticas, à semelhança do que tem acontecido com o aparecimento de novas variantes do vírus SARS-CoV-2.
Modificações essas que podem fazer com que estes agentes microbianos se tornem resistentes aos medicamentos que usamos, que deixam de ter o efeito desejado. As infeções tornam-se, por isso, mais difíceis de curar, aumentando o risco de se espalharem pela população.
A utilização excessiva de antibióticos – na medicina, na higienização dos espaços, nos alimentos, na pecuária, na agricultura – favorece o aparecimento de variantes resistentes, com risco muito acrescido para a saúde pública. E a resistência bacteriana aos antibióticos convencionais aumentou drasticamente nas últimas décadas, dificultando o tratamento eficaz de infeções causadas por bactérias resistentes a medicamentos. Aliás, de acordo com a OMS, estima-se que a cada ano, só na União Europeia, mais de dois milhões de pessoas fiquem infetadas com bactérias resistentes, das quais 25.000 acabam mesmo por morrer.
Esta situação tem impulsionado a busca por novos agentes antibacterianos eficazes, por todo o mundo. Em Portugal, o Instituto de Medicina Molecular (iMM) dedica-se à investigação de possíveis medicamentos que atuam como antivirais e como antibacterianos, duas áreas em que a resistência se faz notar.
Na frente viral, o iMM está a desenvolver o projeto NOVIRUSES2BRAIN, coordenado por Miguel Castanho, cujo objetivo é desenvolver fármacos menos suscetíveis a criar resistência aos vírus, ao atacarem os vírus em pontos onde a sua adaptação é muito difícil.
Na frente bacteriana, o grupo de investigadores pretende desenvolver antibióticos que eliminem bactérias, mesmo quando estas se escondem em “fortalezas” que elas próprias constroem, chamadas biofilmes. De acordo com o National Institutes of Health, dos EUA, 80% das infeções crónicas em humanos estão associadas à formação de biofilmes.
Para Miguel Castanho, investigador principal do iMM e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a ideia é “desenvolver novos medicamentos, neste caso, péptidos com ação antimicrobiana (antiviral e antibacteriana) e que potencialmente sejam capazes de ultrapassar a resistência antimicrobiana que se tem verificado em alguns dos medicamentos existentes atualmente. O carácter inovador dos nossos potenciais medicamentos deve-se ao facto de estes se ligarem a outras estruturas celulares diferentes do mecanismo de ação tradicional dos medicamentos convencionais”.