
Após dois anos de adaptação às mudanças no trabalho, nas escolas, nas viagens e, literalmente, em toda a sociedade, na sequência da pandemia de Covid-19, são muitos os que se encontram num ponto de rutura, frustrados, menos pacientes e cansados. Que tipo de máscara devo usar? Já posso abraçar os meus amigos? Os meus filhos estão seguros? Posso visitar os meus pais? As perguntas são muitas, que alimentam a ansiedade e uma menos conhecida, mas não menos real pandemia, a de saúde mental. E daqui surge outra questão: como lidar com estes sentimentos?
“A sensação de insegurança sobre este momento é aguda”, considera Jill Ehrenreich-May, professora de psicologia e líder do Programa de Tratamento de Ansiedade e Humor de Crianças e Adolescentes da Universidade de Miami, nos EUA. Já Rene Monteagudo, diretor do Centro de Aconselhamento daquela instituição, não tem dúvidas que a pandemia aumentou o número de casos de ansiedade.
No entanto, estes especialistas em saúde mental da Universidade de Miami, aos quais se juntam Orlando Gonzalez, conselheiro de saúde mental e Viviana Horigian, professora de saúde pública e psiquiatra, dizem que existem formas de superar o ciclo de stress e ansiedade desencadeado por esta incerteza. E há maneiras de ajudar os outros.
– Não perder o controlo do bem-estar (sono, nutrição e exercício)
Todos os especialistas concordam que as formas mais fáceis de evitar que a saúde mental se deteriore é nunca negligenciar o seu próprio bem-estar e autocuidado e manter as rotinas diárias, o que também pode ajudar as pessoas a protegerem-se de uma situação de esgotamento.
“Certifique-se de que está a manter os seus padrões regulares de sono e que está a comer alimentos nutritivos e a manter os seus hábitos de exercício”, refere Viviana Horigian. “Além disso, a autocompaixão, a autorreflexão, a meditação e o mindfulness também são importantes.”
– Arranjar tempo para aos amigos reduz a ansiedade
Horigian, que estuda a solidão, descobriu que reservar tempo para conexões significativas com familiares e amigos é extremamente importante para a saúde mental, sobretudo entre os jovens. E Ehrenreich-May destaca que isso se estende também a adultos e pais, que sofrem igualmente com o isolamento e a solidão.
“Se estiver a sentir-se sozinho, procure um amigo, mesmo que seja apenas pelo telefone. Pode não ser tão satisfatório como uma conversa pessoal, mas ajuda”, garante a especialista.
Monteagudo acrescenta que é importante encontrar “alguém com quem conversar. Nem sempre é preciso que seja com um terapeuta profissional, mas partilhar as lutas com alguém realmente ajuda”.
– Manter ao máximo a fronteira entre trabalho e vida doméstica
A mudança para o teletrabalho levou a uma indefinição das linhas entre o trabalho e a vida doméstica, o que prejudicou a saúde mental de muitos e levou algumas pessoas a sofrerem um esgotamento. Os sintomas de burnout, como problemas de sono, irritabilidade, sensação de opressão, falta de ar, palpitações cardíacas, bem como perda de motivação e prazer por coisas que eram divertidas no passado, sobrepõem-se muitas vezes aos sinais de ansiedade.
Para evitar o esgotamento, Horigian sugere que as pessoas mantenham uma separação entre o trabalho e a vida doméstica. “A importância de proteger esses limites para a autopreservação é essencial”, acrescenta.
– Se uma situação irrita, dar um passo atrás
Existem certas estratégias – como imaginar os pensamentos como folhas num fluxo – que os psicólogos podem sugerir para ajudar as pessoas a lidar com ansiedade ou frustração, mas a maioria força-as a parar e considerar (ou reconsiderar) os seus pensamentos, explica Ehrenreich-May. Isso também pode significar uma caminhada à volta do bairro para limpar a cabeça.
Ofereça uma sensação de estrutura em casa, na escola ou no trabalho. Isso é importante para crianças, estudantes e não só, porque pode ajudar a reduzir a ansiedade.
Todos os humanos, independentemente da idade, imaginam muitas vezes os piores cenários quando não recebem orientações sobre o futuro. Por isso, Gonzalez defende que líderes como pais, diretores e membros do corpo docente podem ajudar a proteger a saúde mental dos seus filhos, alunos ou funcionários, elaborando um plano de ação que ofereça a todos um sentido de direção.
“Há muitos pontos de interrogação na mente das pessoas hoje. Se for capaz de desenvolver um plano, está a preencher algumas dessas lacunas, para que eles não precisem de se preocupar tanto com os próximos passos”, acrescenta. “Os diretores podem apoiar os funcionários oferecendo estrutura e orientação sobre o rumo dos departamentos, mesmo que não saibam o resultado final. Podem também tranquilizar as pessoas sobre o seu valor e o seu lugar no plano. Isso ajuda as pessoas a sentirem que são parte da equação e dá-lhes uma sensação de esperança, base e estabilidade.”
– Concentrar-se nas coisas que podem ser controladas
Faça um inventário das coisas sobre as quais tem influência no trabalho ou na sua vida pessoal e mantenha o foco no que pode fazer de forma independente. Isso dá-lhe uma maior sensação de controlo e pode fazer mais, considera Gonzalez.
“Todos nós precisamos de reconhecer que a incerteza sempre existirá e não tem de ser mau não estar no controlo de tudo”, reforça. “Quando reconhecemos e aceitamos esse facto, começamos a deixar de lado a necessidade de tentar controlar o incontrolável ou de ter tudo em ordem absoluta.”
– Verificar se as outras pessoas podem estar a sofrer de ansiedade
Se estiver preocupado com alguém, verifique se essa pessoa está bem, sugere Monteagudo. “As pessoas geralmente fornecem pistas de que algo não está certo ou se precisam de ajuda para discutir alguma coisa que possa estar a pesar sobre elas. Ouça o que está a ser dito através dos estilos de comunicação verbal e não-verbal.”