Scroll Top

Tarefa diária, como bater um ovo, abre nova possibilidade para avaliar Parkinson em casa

Tarefa para avaliar Parkinson

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta o movimento e a qualidade de vida de milhões de pessoas. Um dos seus principais sintomas motores é a bradicinesia, ou lentidão dos movimentos, que se pode manifestar como uma redução progressiva da amplitude, velocidade ou força com que se realiza uma ação repetitiva. Tradicionalmente, a avaliação destes sintomas é feita em consultório, com recurso a escalas clínicas e observação especializada. Embora este procedimento continue a ser essencial, apresenta uma limitação significativa: oferece um retrato momentâneo do estado motor da pessoa, que pode variar por diversas razões. Assim sendo, existe um crescente interesse no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas que permitam a medição objetiva da evolução motora em situações mais próximas da vida real.

Neste contexto, investigadores do Grupo de Investigação em Instrumentação e Acústica Aplicada da Universidade Politécnica de Madrid (UPM) propuseram uma nova abordagem: analisar como é que uma pessoa bate num ovo durante um minuto enquanto usa um smartwatch no pulso. O relógio regista sinais de aceleração e velocidade angular utilizando sensores inerciais, sendo que estes sinais são posteriormente processados ​​através de técnicas de aprendizagem automática.

A atividade escolhida não é acidental. Bater um ovo é uma tarefa quotidiana que exige movimentos repetitivos de flexão-extensão e rotação do punho, mantendo um ritmo relativamente constante e sustentando a energia do movimento durante um período de tempo. Precisamente por este motivo, muitos indivíduos afetados identificam atividades deste tipo — cozinhar, mexer, bater ou manusear utensílios — como momentos em que começaram a perceber que algo estava errado com os seus movimentos, mesmo antes de receberem um diagnóstico.

Além disso, bater um ovo não faz apenas parte das atividades da vida diária, mas também é comummente utilizado como exercício em terapia ocupacional para trabalhar a mobilidade, a coordenação e a função da mão e do punho. Esta dupla dimensão — atividade quotidiana e reabilitação terapêutica — torna a tarefa numa candidata particularmente interessante para o estudo dos sintomas motores de uma forma natural e reprodutível, que se assemelha bastante à experiência real dos doentes com Parkinson.

“O objetivo não é substituir a avaliação clínica, mas sim explorar se um conjunto de tarefas simples, reproduzíveis e quotidianas pode fornecer informações objetivas sobre o estado motor das pessoas com doença de Parkinson”, explica a equipa de investigação da UPM. “O fundamental é aproximar a avaliação do ambiente real da pessoa afetada, mantendo um protocolo suficientemente controlado para garantir a comparabilidade dos dados.”

O papel da monitorização em casa

O estudo envolveu 22 pessoas com doença de Parkinson e 16 indivíduos saudáveis ​​como grupo de controlo. Cada participante realizou a tarefa durante uma semana. Na primeira sessão, o exercício foi realizado sob supervisão. Posteriormente, os participantes repetiram a atividade em casa, sem supervisão direta, e regressaram no final do estudo para uma sessão final supervisionada. Este projeto permitiu comparar o desempenho do sistema tanto em ambiente controlado como em condições reais de utilização.

Os resultados mostram diferenças claras entre os grupos. As pessoas com doença de Parkinson apresentaram consistentemente uma menor amplitude de movimento, uma frequência de oscilação mais lenta e uma diminuição progressiva da energia do sinal ao longo da tarefa. Estes padrões estão alinhados com as manifestações clínicas da bradicinesia e foram observados nos dados do acelerómetro e do giroscópio do relógio.

A partir destes sinais, a equipa extraiu características nos domínios do tempo e da frequência e avaliou diferentes modelos de aprendizagem automática. “Uma tarefa quotidiana bem definida e facilmente reproduzível pode gerar sinais com informação suficiente para que os modelos de inteligência artificial extraiam dados úteis, mesmo quando a medição é realizada em casa”, destaca a equipa de investigação do projeto.

Para além do interesse científico, a proposta tem implicações sociais e clínicas. Uma tal ferramenta poderá facilitar a monitorização longitudinal dos sintomas motores das pessoas com Parkinson no futuro, reduzir a necessidade de deslocações frequentes a determinadas avaliações e fornecer aos profissionais de saúde informações complementares sobre o progresso do doente no seu ambiente habitual.

Poderá também ajudar a conectar as avaliações tecnológicas com tarefas que as pessoas com Parkinson reconhecem como significativas no seu dia a dia, promovendo, assim, investigação mais compreensível, aceitável e centrada no doente.

No entanto, os autores realçam que esta é uma linha de investigação em curso e que serão necessários estudos com grupos maiores e mais diversificados antes de se considerar a sua ampla aplicação clínica.

Crédito imagem: Pexels

Posts relacionados