
Quando os testes de diagnóstico para o coração foram criados, os cientistas de então não consideraram totalmente que não há dois corpos iguais, ignorando sobretudo as diferenças entre sexos. Hoje, são muitas as mulheres vítimas de problemas cardíacos que parecem, por isso, fora do normal. E a resposta ao porquê parece estar na genética.
De acordo com Jennifer Dungan, professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade da Florida, muitos dos atuais perfis de sintomas e testes de laboratório para as doenças cardíacas não refletem com precisão as diferenças conhecidas entre homens e mulheres, o que levou ao aumento das lacunas na equidade dos cuidados de saúde.
“Por causa desta disparidade, as mulheres são mais propensas do que os homens a relatarem sintomas de doenças cardíacas que parecem fora do normal, sofrerem atrasos no tratamento de doenças cardíacas e até serem vítimas de ataques cardíacos não diagnosticados”, explica Dungan.
“Por razões que permanecem incertas, as mulheres podem ter doenças cardíacas de forma diferente dos homens. Isso pode levar a desigualdades para elas, que precisam de ser abordadas.”
Dungan refere que os investigadores na área da cardiologia acreditam que algumas destas diferenças nos sintomas e resultados podem ser devido à variação genética entre homens e mulheres. E identificou um gene específico que acredita ser o responsável, o chamado RAP1GAP2.
“RAP1GAP2 é um forte candidato para os efeitos associados ao sexo nos resultados de doenças cardíacas das mulheres”, confirma. “Acredita-se que certos marcadores de ADN neste gene gerem a atividade das plaquetas, células sanguíneas incolores que ajudam a coagular o nosso sangue. Isso também apresenta um risco de ataque cardíaco. Um gene hiperativo pode fazer com que muitas plaquetas respondam ao coágulo, o que pode bloquear o fluxo de sangue e o oxigénio para o músculo cardíaco e levar a um ataque cardíaco.”
Como o RAP1GAP2 não foi associado a maus resultados cardíacos entre os homens no estudo da sua equipa, ela acredita que este gene pode funcionar de forma diferente entre os elementos do sexo feminino.
Ainda menos se sabe sobre estas diferenças entre raças e etnias. As mulheres negras e algumas hispânicas correm um risco ainda maior de problemas cardíacos, devido a muitos fatores que Dungan acredita que podem incluir a genética.
“O objetivo não é encontrar diferenças biológicas entre grupos de pessoas mas, em vez disso, é encontrar os marcadores genéticos mais precisamente associados a doenças cardíacas para todas as mulheres”, refere. “E para fazer isso, precisamos de considerar a variação genética dentro dos elementos do sexo feminino também.”
Salvar mais vidas de mulheres
Para descobrir como o gene pode afetar os riscos de doenças cardíacas entre mulheres de diferentes origens, o mais novo projeto de Dungan visa encontrar no gene RAP1GAP2 marcadores específicos que mais fortemente se relacionam com sintomas de doenças, ataques cardíacos e morte em mulheres de diferentes grupos raciais e étnicos.
“No final do estudo, se os marcadores genéticos RAP1GAP2 refletirem com precisão os sintomas cardíacos das mulheres e previrem a probabilidade de um futuro ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou morte, então esses marcadores genéticos podem ajudar-nos a ter mais confiança no seu diagnóstico e prognóstico futuro”, refere.
“Ter biomarcadores mais precisos para elas salvaria vidas e melhoraria a igualdade de saúde para todas as mulheres.”