O bem-estar dos profissionais de saúde é fundamental para dar um atendimento de alta qualidade ao doente, mas o esgotamento clínico continua a aumentar, sobretudo no último ano devido à pandemia de COVID-19. Quatro organizações cardiovasculares internacionais – o Colégio Americano de Cardiologia, a Associação Americana de Cardiologia, a Sociedade Europeia de Cardiologia e a Federação Mundial do Coração – pedem, por isso, uma ação global para melhorar o bem-estar dos profissionais de saúde.

“Nas últimas décadas, ocorreram mudanças significativas na área de saúde, com a expansão da tecnologia, carga regulatória e carga de tarefas administrativas. Estes desenvolvimentos têm um custo para o bem-estar e integração trabalho-vida dos médicos”, afirma Athena Poppas, representante do Colégio Americano de Cardiologia e coautora do parecer conjunto.

“A pandemia de COVID-19 causou tensão adicional aos médicos através do aumento da mortalidade dos doentes, preocupações com a segurança pessoal e familiar, medo do desconhecido e aumento da intensidade do trabalho. Agora é o momento de pedir uma ação rápida para melhorar o bem-estar dos profissionais de saúde em todo o mundo.”

Stress e burnout

O bem-estar dos profissionais de saúde é descrito como uma experiência de satisfação e integração no trabalho, ao mesmo tempo em que o profissional tem um sentimento de realização e um sentido de pertença ao trabalho.

Por outro lado, o burnout é definido como a exaustão emocional, despersonalização e uma sensação de baixa realização pessoal num ambiente de trabalho aparentemente stressante. É um componente extremamente negativo no espetro do bem-estar dos profissionais de saúde e pode coexistir com outros problemas de saúde mental (por exemplo, ansiedade e depressão).

Dados de estudos recentes, feitos entre 2.274 cardiologistas e bolsistas em treino nos EUA, relataram que mais de um quarto estavam esgotados e quase 50% stressados. Apenas 23,7% disseram gostar do trabalho e as mulheres relataram burnout com mais frequência, em comparação com os homens.

Os motivadores associados ao burnout entre os cardiologistas incluem a falta de controlo sobre a carga de trabalho, um ambiente de trabalho agitado, desalinhamento de valores e tempo insuficiente. 

“Estes stressores aumentam com o tempo e, coletivamente, diminuem a nossa capacidade de fornecer atendimento de alta qualidade ao paciente e de fortalecer e diversificar a nossa força de trabalho. Além disso, o estigma relacionado com os cuidados de saúde mental deve ser erradicado”, refere Mitchell S.V. Elkind, representante da Associação Americana de Cardiologia.

“As nossas organizações estão unidas neste relatório para garantir que criamos um ambiente clínico forte e de apoio – para o nosso bem-estar pessoal e para as nossas famílias, entes queridos e doentes. O bem-estar é essencial para alcançar a realização pessoal e a satisfação no nosso trabalho.”

Melhorar os cuidados melhorando o bem-estar dos profissionais de saúde

Existem sérias ramificações pessoais e profissionais no esgotamento clínico. As ramificações pessoais do burnout consistem em taxas mais altas de abuso de álcool, uso de substâncias, relacionamentos disfuncionais, depressão e suicídio. Já as ramificações profissionais incluem taxas mais altas de erros médicos, menor qualidade de atendimento, diminuição da satisfação do paciente, aumento do comportamento perturbador e perda de profissionalismo, acompanhada por um nível reduzido de empatia.

“O aumento da taxa de stress e esgotamento entre os profissionais de saúde faz soar um alarme. Além de consequências graves para o indivíduo, afeta o atendimento ao doente. A Sociedade Europeia de Cardiologia (SEC) junta-se hoje a outras sociedades profissionais para levantar uma bandeira vermelha e instar os sistemas de saúde a criar ambientes saudáveis ​​para todos aqueles que prestam cuidados”, refere Stephan Achenbach, presidente da SEC.

A opinião conjunta exorta as organizações de saúde e sociedades de especialidades médicas a implementarem estratégias para prevenir o esgotamento clínico. 

Uma opinião publicada simultaneamente nas principais revistas de todas as quatro organizações: Journal of the American College of Cardiology, Circulation, European Heart Journal e Global Heart.

“Como médicos, procuramos continuamente a melhoria da saúde dos nossos pacientes e, ao mesmo tempo, reconhecemos que o nosso próprio bem-estar é fundamental para que recebam o tratamento ideal”, conclui Mehta. “Continuaremos a trabalhar juntos e traçar estratégias para manter o bem-estar da nossa força de trabalho e manter a alegria na medicina cardiovascular.”