A exploração da coleção de medicamentos mais abrangente do mundo para a luta contra a COVID-19 levou os cientistas a identificarem 90 medicamentos existentes ou candidatos a medicamentos com atividade antiviral contra o coronavírus responsável pela atual pandemia.

Entre estes compostos, o estudo Scripps Research identificou quatro medicamentos aprovados clinicamente e nove compostos noutras fases de desenvolvimento com forte potencial para serem reaproveitados como medicamentos orais para COVID-19, tal como mostram os resultados publicados na revista Nature Communications.

“Embora agora tenhamos vacinas eficazes contra a COVID-19, ainda carecemos de medicamentos antivirais altamente eficazes que possam prevenir infeções por COVID-19 ou impedir que piorem”, refere Peter Schultz,  presidente e CEO da Scripps Research.

“Os nossos resultados aumentam a possibilidade de uma série de caminhos promissores para reaproveitar medicamentos orais existentes com eficácia contra o SARS-CoV-2”, acrescenta. “Identificamos medicamentos existentes promissores e também estamos a aproveitar as nossas descobertas para desenvolver antivirais otimizados que serão mais eficazes contra o SARS-CoV-2, incluindo variantes e estirpes resistentes a medicamentos, bem como contra outros coronavírus que existem atualmente ou possam surgir no futuro.”

Foram, ao todo, testados mais de 12.000 medicamentos em dois tipos diferentes de células humanas infetadas com o SARS-CoV-2.

Os medicamentos usados ​​no estudo vieram da biblioteca de reaproveitamento de medicamentos ReFRAME, que foi criada pela Calibr em 2018 com o apoio da Fundação Bill & Melinda Gates para lidar com áreas de necessidade médica urgente sem resposta, sobretudo doenças tropicais negligenciadas. A coleção contém medicamentos aprovados pela FDA e outros compostos experimentais que foram testados quanto à segurança em humanos.

“No início da pandemia de COVID-19, vimos que o ReFRAME poderia ser aproveitado para rastrear resultados contra o SARS-CoV-2″, explica Arnab Chatterjee, vice-presidente de química medicinal da Calibr. “Nos meses que se seguiram, lançamos muitas colaborações científicas para acelerar a descoberta de medicamentos, tanto internamente como com parceiros nacionais e internacionais.”

No estudo Scripps Research, os cientistas trataram dois tipos diferentes de células humanas infetadas com SARS-CoV-2, cultivadas em laboratório, com cada um dos 12.000 medicamentos do ReFRAME. Após 24 ou 48 horas,  mediram o nível de infeção viral nas células para determinar se os medicamentos impediam a replicação do vírus. Em alguns casos, aplicaram dois medicamentos ao mesmo tempo para ver se os compostos funcionariam juntos contra o vírus.

“Algumas das estratégias antivirais mais eficazes são os ‘coquetéis’ nos quais os doentes recebem vários medicamentos diferentes para combater a infeção, como os usados ​​para tratar infeções pelo HIV”, diz o autor correspondente do estudo, Thomas Rogers.

Dos milhares de medicamentos testados, foi identificado um total de 90 compostos que impediram o SARS-CoV-2 de se replicar em pelo menos uma das linhas das células humanas. Destes, 13 tinham o maior potencial para serem reaproveitados como terapias para tratar a COVID-19, com base na sua potência, atividade independente da linha celular ou um provável mecanismo de ação, propriedades farmacocinéticas e perfis de segurança humana.

Quatro dos medicamentos já foram aprovados pela FDA e outros nove estão em vários estágios do processo de desenvolvimento do medicamento.

“A vantagem potencial de uma estratégia terapêutica que usa uma combinação de drogas é que tomar uma dose menor de qualquer uma das drogas pode reduzir o risco dos seus efeitos secundários”, afirma Malina Bakowski,  autora principal do artigo da Nature Communications.

“Os resultados dos ensaios celulares e modelos animais são muito promissores e a necessidade de medicamentos para tratar a COVID-19 continua urgente”, refere Schultz. “É fundamental que procedamos com o máximo rigor para determinar o que é seguro e eficaz, pois a diligência é o caminho mais conveniente para encontrar novas terapias que farão a diferença para os doentes.”