Só agora, mais de um ano após as taxas de infeção por Covid-19 terem atingido os níveis máximos e sabendo que os recetores para SARS-CoV-2 estão presentes no ovário, é possível avaliar o efeito do vírus na função reprodutiva. E um novo estudo traz boas notícias: a reserva ovárica das mulheres previamente infetadas com o vírus não foi afetada e a probabilidade de sucesso de um tratamento de fertilização in vitro permanece igual ao que era antes da infeção. 

A reserva ovárica descreve a capacidade do ovário de produzir óvulos para fertilização (natural e medicinal) e gravidez. Devido à existência de um número fixo de óvulos do ovário, que se esgota com o tempo, a reserva ovárica diminui, a partir dos 35 anos, continuando a cair até à menopausa, momento em que a função reprodutiva cessa. 

O estudo, que monitorizou os níveis hormonais em mulheres com fertilização in vitro numa das 11 clínicas do grupo IVI em Espanha, entre maio e junho de 2020, foi descrito por Maria Cruz Palomino, especialista do IVI Madrid, no encontro anual online da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia.

Todas as mulheres no estudo tiveram medições hormonais basais antes do início do tratamento, que incluiu medições da hormona anti-Mulleriana (AMH, como um marcador de reserva ovárica) – a AMH tornou-se uma medida amplamente usada em clínicas de fertilidade nos últimos anos, capaz de prever como os pacientes podem responder à estimulação ovárica na FIV, embora a sua confiabilidade como marcador da fertilidade feminina geral seja mais contestada.

O estudo incluiu 46 mulheres que fizeram fertilização in vitro, com medições basais de AMH normais no início do tratamento. “Os dados não mostraram nenhuma variação nos níveis de AMH antes e depois da infeção por SARS-CoV-2, e podemos supor que a probabilidade de sucesso no tratamento de fertilidade permaneceram intactas”, refere a especialista.

Vários estudos relatados até agora têm sido tranquilizadores sobre o efeito da infeção por Covid-19 na fertilidade feminina, e este é mais uma garantia para quem planeia fazer um tratamento de fertilidade com fertilização in vitro.

Este, como refere a especialista, foi um estudo pequeno e não robusto o suficiente para conclusões enfáticas de saúde pública, mas que se junta a outros ao sugerir que a função ovárica, conforme refletida nas medições da AMH, não é afetada pela infeção pelo SARS-Cov-2.

Tem havido preocupação porque o vírus invade as suas células-alvo ligando-se ao recetor ACE2, que é amplamente expresso nos ovários (bem como no útero, vagina e placenta).

Foi dito que o vírus SARS-CoV-2 interrompe a fertilidade feminina, o que causou alguma ansiedade nas mulheres que consideram fazer um tratamento de fertilidade, e este último estudo sugere que, embora houvesse uma variação nos níveis de AMH como um marcador de reserva ovárica, essa variação parece dependente da resposta do doente à estimulação ovárica, não da infeção anterior.

“Mesmo assim”, refere Palomino, “podemos presumir que as probabilidades de sucesso do tratamento de fertilidade permanecem intactas”.