
As pessoas com menos de 50 anos diagnosticadas com cancro colorretal têm significativamente mais probabilidade de morrer de causas cardiovasculares do que a população em geral, sobretudo nos primeiros dois anos após o diagnóstico, mostra um estudo apresentado na Sessão Científica Anual do Colégio Americano de Cardiologia.
Trata-se do primeiro estudo a monitorizar as taxas de mortalidade cardiovascular e a avaliar como o risco se altera ao longo do tempo. Embora as razões para esta associação ainda não sejam conhecidas, os investigadores dizem que as descobertas apontam para a necessidade de uma maior atenção à saúde cardíaca durante o tratamento do cancro, particularmente entre pessoas negras, do sexo masculino ou com menos de 50 anos no momento do diagnóstico de cancro colorretal.
“Com base nas nossas conclusões, o período de dois anos após o diagnóstico de cancro colorretal é um período crítico, quando os doentes necessitam de cuidados agressivos para melhorar os resultados cardiovasculares”, explica Ahsan Ayaz, especialista no Montefiore St. Luke’s Cornwall Hospital em Newburgh, Nova Iorque.
“Deve haver uma abordagem agressiva para controlar os fatores de risco cardiovascular e as comorbilidades, como a diabetes e a hipertensão. Há também a necessidade de coordenação entre as equipas de oncologia e as equipas de cuidados primários, porque a maioria destes fatores de risco são geridos pelos prestadores de cuidados primários”, esclarece.
O imapacto do cancro colorretal no coração
As doenças cardíacas são a principal causa de morte no mundo e muitos estudos mostram que as pessoas com cancro têm um maior risco de problemas cardiovasculares. Um estudo de 2022 descobriu que os sobreviventes de cancro tinham um risco 37% maior de doenças cardiovasculares, mas a relação entre mortalidade cardiovascular e cancro colorretal nunca foi bem estudada.
Agora, os investigadores utilizaram dados de mais de 630.000 americanos adultos, diagnosticados com cancro colorretal entre 2000 e 2021 e os resultados mostraram que as pessoas com cancro colorretal tinham 16% mais probabilidade de morrer de causas cardiovasculares do que as pessoas sem este tipo de cancro.
O risco foi maior nos dois primeiros anos após o diagnóstico, com os doentes a enfrentarem um risco 45% maior durante este período. Risco ainda mais pronunciado entre as pessoas com menos de 50 anos de idade, que tinham 2,4 vezes mais probabilidades de morrer de causas cardiovasculares do que as pessoas da mesma faixa etária sem cancro colorretal.
Já os homens enfrentaram um risco 55% superior, disparidades que, segundo Ayaz, podem resultar de múltiplos fatores, como diferenças no estatuto socioeconómico, localização geográfica ou acesso a cuidados, e justificam mais estudo e atenção.
O risco elevado de morte cardiovascular pode resultar de efeitos secundários do tratamento do cancro, do próprio cancro e dos processos inflamatórios que provoca, ou de alguma outra causa ou combinação de causas, dizem os investigadores.
“Para tratamentos mais recentes, não existem muitos dados sobre os efeitos secundários e toxicidades, mas estão a surgir evidências de que causam toxicidade cardiovascular”, refere Ayaz. “É importante identificar estes problemas prontamente e tomar medidas para os mitigar.”