A maioria dos doentes com cancro quer saber se a doença é curável e muitos também querem saber quanto tempo vão viver. Mas os médicos que dão aos doentes com cancro da mama em estado avançado uma estimativa de quanto tempo têm de vida apenas são precisos 20 a 30% das vezes, revela Belinda Kiely, oncologista e investigadora sénior da Universidade de Sydney, na Austrália, que sugere uma alternativa.

Oradora na 5.ª Conferência Internacional de Consenso sobre o Cancro da Mama (ABC5), que decorre em Lisboa, Belinda Kiely explica que, embora muitos doentes queiram saber quanto tempo vão viver, para os médicos é difícil conseguir dar informações precisas. Por isso, defende que o melhor é mesmo dar uma estimativa para o melhor, o pior e o tempo de sobrevivência típico, algo que diz ser mais preciso e útil. E foi nesse sentido que criou um método de cálculo.

 “Todas as semanas, encontro na minha prática clínica mulheres de todas as idades com cancro da mama avançado e frequentemente perguntam: ‘Quanto tempo tenho?’ Elas têm preocupações e perguntas muito práticas para as quais querem ajuda. Por exemplo, podem querer saber se devem cancelar um evento planeado, se poderão comparecer ao casamento da filha ou se devem parar de trabalhar ou vender a casa”, explica.

“No entanto, os oncologistas às vezes não têm certeza sobre como ajudar. Podem preocupar-se com o quanto um doente quer saber, se é possível fornecer informações precisas e qual a melhor forma de falar sobre isso sem destruir a esperança.”

“A maioria dos dados sobre os tempos de sobrevivência do cancro da mama avançado vem de ensaios clínicos, com doentes com critérios específicos de elegibilidade. Esses doentes tendem a ser mais jovens, mais aptos e com menos problemas de saúde e, portanto, costumam viver mais do que aqueles que vemos na prática quotidiana”, acrescenta. “No entanto, esses dados de teste fornecem um bom ponto de partida.”

Novo método para calcular tempo de vida dos doentes com cancro avançado

“Dar aos doentes uma estimativa de um tempo médio de sobrevida raramente é exato o e não oferece esperança de esse tempo seja maior. Em vez disso, criamos um método que ajuda os médicos a calcular o melhor, o pior e os tempos de sobrevivência típicos para os doentes individuais”, adianta a especialista.

O método foi testado e provou ser confiável em vários estudos. Envolve médicos que estimam o tempo de sobrevivência esperado para um doente, dividindo-o por quatro para obter o pior cenário e multiplicando-o por três para obter o melhor. O cenário típico fica entre meia e duas vezes a sobrevida estimada pelos médicos.

Kiely e os colegas revelam que os doentes consideram os três cenários (melhor, pior e típico) mais úteis, mais fáceis de entender e mais tranquilizadores do que a estimativa média de sobrevivência com apenas um único número.

Fizeram também rum estudo com 33 oncologistas que, entre eles, conversaram com 146 pessoas com cancro avançado sobre os seus tempos de sobrevivência esperados.

Cada doente recebeu um resumo impresso de uma página com os seus cenários individuais de melhor caso, típico e pior caso e 91% consideraram a informação impressa útil. Ao todo, 88% disseram que os ajudou a fazer planos e 88% disseram que melhorou a sua compreensão. A estes juntam-se 77% que consideraram que os cenários são iguais ou melhores do que o esperado.

 “Se dissermos a uma doente que o seu tempo médio de sobrevivência estimado é de seis meses, isso não dá esperança de uma possível sobrevivência mais longa, mesmo que ela tenha 50% de hipótese de viver mais. Por outro lado, o fornecimento de três cenários ajuda os doentes a prepararem-se para o pior caso possível e, ao mesmo tempo, esperarem o melhor”, avança a especialista.

Com base nas suas descobertas, Kiely e os colegas estão agora a promover a abordagem de “três cenários” com oncologistas na Austrália e esperam incentivar colegas de todo o mundo, reunidos em Lisboa, a fazer o mesmo.

Fátima Cardoso, diretora da unidade de mama do Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa, considera que “a investigação mostra que os doentes que discutem estes problemas com o seu médico têm melhor qualidade de vida, têm menos probabilidade de ter uma ressuscitação agressiva no final da vida e são menos propensos a morrer no hospital. Mas, de momento, também sabemos que muitos não estão a ter estas conversas”.

“A maioria dos doentes com cancro avançado quer informações sobre quanto tempo provavelmente viverão, embora muitos digam que acham difícil fazer essa pergunta. A responsabilidade é nossa, como oncologistas, de iniciar essas conversas com os nossos doentes. Esta ferramenta para calcular e partilhar os três cenários oferece aos médicos a ajuda de que precisam para comunicarem com os doentes de forma realista”, acrescenta.