A perda de peso não tem prioridade suficiente no tratamento dos doentes cardíacos, apesar dos benefícios, mostra um estudo publicado no European Heart Journal – Quality of Care and Clinical Outcomes, um jornal da Sociedade Europeia de Cardiologia.

O estudo, realizado junto de mais de 10.000 pessoas, descobriu que menos de 20% tinham um índice de massa corporal (IMC) saudável no momento em que foram hospitalizadas devido a um evento cardíaco. E se era assim antes depois não era melhor: cerca de 16 meses passados, 86% dos doentes obesos durante a hospitalização continuavam a ser obesos, enquanto 14% dos que apresentavam excesso de peso tinham-se tornado obesos.

As mulheres jovens foram as mais afetadas, com quase metade das pessoas com menos de 55 anos a apresentarem obesidade. No entanto, mais de um terço dos obesos disseram não ter recebido quaisquer conselhos sobre atividade física ou nutrição e quase um em cada cinco disse não ter sido informado de que tinha peso a mais.

“Parece que a obesidade não é considerada pelos médicos um problema sério, que requer atenção, recomendações e conselhos óbvios sobre as metas pessoais de peso”, afirmam os autores.

Poucos ou nenhuns conselhos sobre peso 

A perda de peso é fortemente recomendada para as pessoas com excesso de peso e obesidade que sofrem de doença cardíaca coronária para melhorar a pressão arterial e os níveis de gordura no sangue, assim como reduzir o risco de diabetes tipo 2, diminuindo a probabilidade de outro evento cardíaco.

Este estudo investigou a gestão dos doentes com excesso de peso ou obesos no momento da hospitalização por um primeiro evento cardíaco ou recorrente (por exemplo, ataque cardíaco ou procedimento eletivo para desbloquear artérias obstruídas) e avaliou os conselhos recebidos sobre estilos de vida, as ações tomadas e a relação entre as mudanças de peso e o estado de saúde.

Os investigadores reuniram dados dos estudos EUROASPIRE IV (2012 a 2013) e EUROASPIRE V (2016 a 2017), realizados em 29 países. A análise incluiu 10.507 pessoas com doença cardíaca coronária, que foram visitadas seis a 24 meses após a hospitalização devido a um evento cardíaco (o intervalo médio foi de 16 meses), visita que consistiu numa entrevista, questionários e um exame clínico ao peso, altura e sangue.

Um em cada quatro participantes (24,8%) era do sexo feminino e a idade média no momento do internamento era de 62,5 anos, sendo 34,9% obesos e outros 46,0% com excesso de peso nessa altura.

Mas no momento da visita do estudo (em média 16 meses depois), eram ainda mais os doentes obesos (36,9%) e as taxas de obesidade foram maiores em pessoas mais jovens, com uma prevalência de 40,1% em menores de 55 anos (homens 38,3%, mulheres 48,4%).

Em relação à associação entre as mudanças de peso e o estado de saúde, as pessoas com excesso de peso ou obesas que perderam 5% ou mais do seu peso corporal tinham níveis significativamente mais baixos de hipertensão, dislipidemia e diabetes previamente não reconhecido em comparação com aqueles que ganharam 5% ou mais do seu peso corporal – apesar de serem igualmente tratados com medicamentos para a pressão arterial. Relataram ainda níveis mais elevados de qualidade de vida física e emocional.

Quanto aos conselhos que os doentes receberam, metade foram orientados a seguir um programa de prevenção e reabilitação cardíaca, sem diferença nos conselhos de acordo com o seu peso. Menos de dois terços dos obesos foram orientados no sentido de seguirem as recomendações dietéticas (63,7%) ou a de fazerem atividade física regular (64,2%).

Associações positivas foram encontradas entre melhorias no estilo de vida e perda de peso em pessoas obesas ou com excesso de peso. Em comparação com aqueles que ganharam 5% ou mais do seu peso corporal, aqueles que perderam pelo menos 5% reduziram com mais frequência a ingestão de gordura e açúcar, aumentaram o consumo de frutas, vegetais e peixes, fizeram atividade física regular, compareceram num programa de prevenção e reabilitação cardíaca e seguiram o conselho dietético de um profissional de saúde.

Catriona Jennings, especialista da National University of Ireland-Galway, na Irlanda e autora do estudo, considera que os programas de reabilitação cardíaca, que normalmente enfatizam o exercício, devem dar igual prioridade à gestão dietética.

“A captação e o acesso a programas de reabilitação cardíaca são maus, com menos de metade dos doentes em toda a Europa a relatarem a conclusão de um programa”, acrescenta.

“Estes programas seriam uma boa oportunidade de apoiar os doentes na abordagem ao excesso de peso e obesidade, sobretudo para as pessoas do sexo feminino que apresentaram o maior problema de excesso de peso e obesidade no estudo. A captação e o acesso poderiam ser melhorados com o uso de tecnologia digital, especialmente para as mulheres, que possivelmente são menos propensas a frequentar um programa porque têm muitas outras prioridades concorrentes, como cuidar de outras pessoas. Existem boas razões para as pessoas controlarem o seu peso após um evento cardíaco – mas não é fácil e elas precisam de ajuda.”