Cientistas da Universidade de Örebro, na Suécia, descobriram que um pequeno componente do sangue, o marcador de inflamação Interleucina-6, ou IL-6, pode ajudar a prever um enfarte anos antes de este acontecer.

Um grande número de amostras de plasma sanguíneo está armazenado em congeladores no norte da Suécia, a uma temperatura de -80 ° C. É assim desde meados da década de 1980. Hoje, são milhares de amostras de sangue e dados, recolhidos de voluntários da região, que os investigadores acompanharam ao longo do tempo para ver que doenças desenvolviam.

Neste novo estudo, amostras de quase 300 pessoas que acabaram por sofrer um ataque cardíaco – ou enfarte do miocárdio – foram comparadas a um grande grupo de controlo. Comparação que permitiu descobrir que os níveis do IL-6 estavam aumentados anos antes do evento. Em alguns casos, chegou mesmo a ser detetado sete anos antes de as pessoas adoecerem.

“Descobrimos que esse biomarcador poderia prever o que iria acontecer”, afirma Mulugeta Zegeye, investigador da Universidade de Örebro.

Biomarcador explica apenas parte do risco de enfarte

Já se sabia que o IL-6 faz parte do sistema imunitário e é produzido sempre que há inflamação aguda ou crónica. É, por exemplo, um dos responsáveis pela existência de febre. E sabe-se ainda que afeta também outras funções corporais e tem um lado bom e um lado mau, podendo prevenir e causar inflamação

Mas neste trabalho, apresentado na revista científica Atherosclerosis, Thrombosis and Vascular Biology, foi examinado de uma forma inovadora. “O que é único aqui é que estudamos apenas os aspetos inflamatórios do IL-6. Medimos os seus níveis inflamatórios no sangue”, esclarece o cientista.

Ao concentrarem-se apenas na sua função inflamatória, os cientistas foram capazes de mostrar que, para dois grandes grupos de risco, o IL-6 é frequentemente a chave para a ocorrência de enfarte. É o caso dos fumadores e das pessoas com hipertensão, para quem o estilo de vida nem sempre é a causa direta do ataque cardíaco. Em vez disso, é a reação do corpo ao fumo ou à pressão alta que causa os danos.

O estudo indica então que os níveis de IL-6 inflamatório aumentam quando há envolvimento de tabaco ou hipertensão. O que significa que funciona como uma ponte, levando ao enfarte.

“Esta é uma descoberta nova”, diz Mulugeta Zegeye. E que pode permitir que o biomarcador identifique os doentes em risco, levando-os a fazerem mudanças no seu estilo de vida e, ao mesmo tempo, reduzindo o risco de sofrerem um enfarte.

Apesar da importância desta descoberta, os cientistas alertam para o facto de os níveis elevados de IL-6 inflamatório serem apenas uma parte do motivo pelo qual as pessoas adoecem, uma vez que este biomarcador é responsável por entre 15 e 30% do risco de ataque cardíaco em fumadores ou pessoas com pressão alta.

“É muito, visto que usamos apenas um biomarcador. Portanto, no futuro, planeamos incluir outros biomarcadores para explicar a relação com outros fatores de risco e o mau funcionamento cardíaco”, refere Mulugeta Zegeye.

A doença cardiovascular é hoje a causa mais comum de morte em todo o mundo, sendo responsável por quase uma em cada três mortes.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 17,9 milhões de pessoas morrem por ano na sequência das doenças cardiovasculares, sendo o AVC e o enfarte do miocárdio os responsáveis pela maioria dos óbitos.