Há um ano, a equipa de investigadores liderada por Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, dava início ao projeto NOVIRUSES2BRAIN. Recentemente, à lista de vírus estudados neste projeto foi adicionado o SARS-Cov-2, depois de se ter concluído que também este poderá provocar danos neurológicos.

O trabalho teve início após a conquista de um financiamento europeu de 4,2 milhões de euros. O principal objetivo da investigação passava por desenvolver fármacos capazes de chegar ao cérebro e aí inativar vírus, como Dengue, Zika ou HIV, evitando os seus possíveis efeitos neurológicos.

Da lista fará parte em breve o vírus do Nilo Ocidental, fruto dos casos mortais ocorridos na zona de Sevilha, em Espanha.

No arranque do projeto já se sabia que algumas moléculas eram capazes de chegar ao cérebro e outras apresentavam uma grande atividade antiviral.

Nesse sentido, Miguel Castanho explica que “durante os últimos 12 meses, unimos os dois tipos de moléculas, formando conjugados, e demonstrámos que, de facto, algumas delas, como esperado, são capazes de passar da corrente sanguínea para o cérebro. Falta agora demonstrar que estes conjugados são ativos contra vírus no cérebro e que os efeitos secundários (no cérebro e fora dele) não são graves”. 

Possíveis danos neurológicos

Sobre o SARS-CoV-2, a equipa de investigadores ainda está a dar os primeiros passos.

“Os ensaios ainda estão numa fase muito inicial, dado que todos os procedimentos com o SARS-CoV-2 são absolutamente novos. O que estamos a fazer é utilizar a mesma estratégia e ensaios que utilizámos para os outros vírus para testar a capacidade anti-viral das moléculas que estamos a desenvolver contra o SARS-CoV-2.”

O próximo passo na investigação passa por “garantir que as moléculas em causa são suficientemente seguras e eficazes em animais de laboratório”, antes de serem testadas em humanos.

Por isso, o desafio que se segue “será otimizar as circunstâncias em que possamos testar os fármacos que estamos a desenvolver in vivo, uma vez que os vírus que estudamos multiplicam-se em humanos e não o fazem naturalmente em animais; esta é uma limitação enorme na avaliação da ação in vivo dos fármacos antivirais”.

O dever dos investigadores

Numa altura em que muito se fala da investigação de fármacos, sobretudo, da tão desejada vacina contra a COVID-19, Miguel Castanho afirma que “é dever dos investigadores contribuírem para o reforço da cultura científica da população, o que se traduzirá numa melhor capacidade de escrutinar informação alegadamente científica e melhor recetividade à adoção de medidas de saúde pública sustentadas cientificamente”.

De facto, desde o seu início que o projeto NOVIRUSES2BRAIN saiu fora do laboratório, levando a ciência à população. Isto “ajuda também ao entendimento da população sobre as motivações, forças e limitações da Investigação Científica como setor de atividade”.

Todas estas motivações ganharam uma nova força no tempo atual, “em que existe uma grande expectativa sobre de que forma a Ciência poderá contribuir para o fim da pandemia de COVID-19”.