Serão cerca de 35 mil os portugueses que sofrem com asma grave. Pessoas que vivem todos os dias com o receio dos sintomas, receio de sair, de não poder fazer desporto, de não poder rir… Porque, como explica João Fonseca, imunoalergologista e investigador do CINTESIS, “a influência que a asma grave tem no dia-a-dia do doente é totalmente diferente da asma ligeira ou moderada”. Mais ainda ao ter em conta “que grande parte dos doentes com asma grave não tem a doença controlada”.

Aqui, a frequência e intensidade dos sintomas e das crises é muito maior, assim como maior é também a dificuldade de controlar a doença. Mas, nos últimos anos, as terapêuticas biológicas vieram alterar esta situação.

Estas terapêuticas configuram uma oportunidade, ainda que continuem a chegar a poucos doentes, tema que vai estar em debate esta sexta-feira (dia 6), na Fundação do Oriente, no encontro ‘Viver sem Fôlego’, uma iniciativa da AstraZeneca, no âmbito do programa Precision.

“As novas terapêuticas biológicas são de facto uma alteração significativa e criam toda uma outra expectativa para uma situação que antes era quase irresolúvel, ou era melhorável apenas com os corticoides orais, com enormes problemas do ponto de vista de efeitos laterais”, refere o médico.

“Estas terapêuticas inovadoras têm resultados muito melhores, ao mesmo tempo que evitam a utilização dos corticoides orais, que têm sérias consequências cardiovasculares, oculares, ósseas, ou na facilitação de pneumonias, uma das principais causas de mortalidade em Portugal e muito mais frequentes nos indivíduos que estão a fazer os corticoides orais”, acrescenta.

Reduzir a toma desta medicação é, por isso, um desafio, “porque ainda temos a maioria dos nossos doentes com asma grave insuficientemente tratados ou tratados com medicamentos que têm efeitos colaterais muito grandes a longo prazo”.

Quem paga os tratamentos para a asma grave?

A este desafio junta-se outro, o do financiamento: “quem é que paga os cuidados dos doentes? Cada vez mais temos que evoluir para modelos de pagamento baseados em valor e não em atos. Não temos interesse em pagar urgências, interessa é pagar formas de tratamento e seguimento que evitem essas urgências. Porque, neste momento, o sistema de saúde português paga pelos problemas não pela sua resolução”.

Porque a asma grave é, segundo o médico, “uma outra doença e relativamente rara”, o especialista considera também necessária diferenciação, “isto é, a certificação de médicos e de unidades para os diferenciar no tratamento destes doentes, de forma a garantir que determinados locais e profissionais tenham as competências e conhecimentos suficientes para tratar os doentes com asma grave enquanto grupo diferente das restantes asmas”.

A adesão (ou falta dela) ao tratamento

No encontro, aberto ao público em geral, será exibido um documentário internacional com testemunhos reais de doentes com asma grave, que nele partilham os desafios que enfrentam diariamente, as suas angústias, mas também as suas vitórias. Porque é possível controlar a asma grave, apesar de, refere João Fonseca, “sabermos que uma parte importante das pessoas com asma grave não consegue (ainda) atingir esse controlo”.

Para ajudar o doente a cumprir a medicação é necessário que esta “tenha um esquema terapêutico simples e fácil de adaptar à própria vida do doente. Depois, importa que o tratamento não seja demasiado oneroso para o doente, porque isso acaba por muitas vezes por resultar no abandono do tratamento”.

Por fim, outro aspeto muito importante, é a relação médico-doente: “é fundamental que o doente com asma grave conheça bem a sua doença e a sua patologia e tenha uma boa relação com o médico, de forma a sentir-se apoiado. Para melhorar a adesão à terapêutica as soluções tecnológicas, nomeadamente de saúde digital, terão também um papel relevante nos próximos anos”.

O evento ‘Viver sem Fôlego’ é dirigido ao público em geral e a profissionais de saúde, com entrada gratuita, mediante inscrição em viversemfolego.eventbrite.pt