Numa altura em que a Comissão Europeia prepara a futura Estratégia para a Saúde da Mulher, um estudo sobre o impacto das cefaleias e da enxaqueca e as suas projeções para 2050 mostra que, devido à elevada incidência destas doenças, é necessário priorizar as cefaleias nas políticas globais de saúde e alocar os recursos necessários para reduzir este impacto.
Neste contexto, a Aliança Europeia para a Enxaqueca e Cefaleias (EMHA) apresentou, no dia 5 de março, no Parlamento Europeu, os resultados do inquérito “Enxaqueca nas Mulheres – O Padrão Hormonal Invisível”, que visa compreender o impacto real da enxaqueca hormonal e apoiar a sua priorização nas políticas de saúde feminina, tendo em conta que três em cada quatro pessoas que vivem com este problema são mulheres, a maioria em idade reprodutiva.
Em Portugal, os dados revelam que 33,6% das mulheres com enxaqueca nunca consultaram um médico e 72,4% recorrem à automedicação, evidenciando uma lacuna significativa no acesso a cuidados especializados.
Dores de cabeça incapacintantes
O estudo, apoiado pela AbbVie, envolveu 5.410 pessoas de 13 países europeus, incluindo Portugal (464 respostas) e descreve uma realidade persistente: o padrão hormonal na enxaqueca é comum, mas muitas vezes não é explorado e integrado de forma consistente nos cuidados de saúde.
Entre as descobertas apresentadas, destaca-se que duas em cada três participantes reportaram um potencial padrão entre as crises e o seu ciclo menstrual e que 90% indicam que as crises de dor de cabeça durante a menstruação são mais intensas, mais duradouras e mais difíceis de tratar, do que fora deste período.
Apesar destes dados, 68% das mulheres inquiridas afirmam que nunca lhes foi oferecido tratamento individualizado para as crises que apresentam um padrão hormonal. Neste mesmo estudo, 66% associam as suas crises à menstruação e apenas 59% já falaram com um profissional de saúde sobre estes fatores desencadeantes hormonais.
Em Portugal, a limitação associada a este problema é clara: 92% das inquiridas mostram que as suas dores de cabeça limitaram a sua capacidade de trabalhar, estudar ou fazer o que precisavam durante pelo menos um dia. E confirmam ainda a intensidade das dores de cabeça: numa escala de zero (sem dor) a 10 (a pior dor possível), 79,8% consideram que a sua é superior a 6. Uma dor que levou mesmo a maioria (66,4%) a procurar ajuda médica, ainda que a 20,8% não tivesse sido prescrito tratamento médico para a sua enxaqueca.
Para Elena Ruiz de la Torre, diretora executiva da EMHA, “os resultados deste estudo mostram uma realidade que tem sido subestimada durante anos: a enxaqueca, sobretudo a menstrual, sofre uma trivialização que agrava a sua invisibilidade e dificulta o seu reconhecimento clínico e institucional”.
“Neste contexto, a EMHA apela ao reconhecimento formal da enxaqueca como um problema de saúde que afeta desproporcionalmente as mulheres, de forma a impulsionar a sua inclusão na Estratégia Europeia de Saúde Neurológica 2025 e a melhorar os cuidados de saúde às mulheres que vivem com enxaqueca”, acrescenta Ruiz de la Torre.
Subdiagnóstico e deficiência na abordagem da enxaqueca hormonal
A enxaqueca é uma doença neurológica com um padrão frequente, invisível e incapacitante, caracterizada por crises de cefaleia intensa e pulsátil de intensidade moderada a grave. Mas apesar da sua elevada prevalência – afeta até 18% das mulheres -, existe ainda um subdiagnóstico significativo da doença.
De facto, o estudo revela que 42% das pessoas com resultados positivos nos exames de rastreio nunca receberam um diagnóstico clínico/médico e que apenas uma em cada quatro participantes (23%) recebeu prescrições terapêuticas específicas, sugerindo que os fatores hormonais continuam a ser largamente ignorados tanto a nível político como na prática clínica, apesar do seu impacto comprovado na intensidade, duração e frequência das crises.
“Os dados deste estudo referentes a Portugal não mentem – a desvalorização e o impacto da enxaqueca na mulher continua a ser uma realidade a nível europeu e a nível nacional. É urgente priorizarmos a enxaqueca, incluí-la nas políticas de saúde europeias e mudar este paradigma. Não é aceitável que a enxaqueca continue a ser negligenciada”, refere Madalena Plácido, Presidente da MiGRA Portugal.
Da evidência ao compromisso político: “Reconhecer. Diagnosticar. Tratar”
A enxaqueca é uma evidência de desigualdade devido à elevada prevalência da doença e ao seu baixo reconhecimento político, clínico e social. Por isso, a EMHA aproveitou a sua participação nesta reunião no Parlamento Europeu para reforçar uma mensagem central: é necessário implementar medidas concretas para promover mudanças nos cuidados da enxaqueca.
Neste sentido, a aliança apresentou um claro apelo à ação sobre esta doença: “Reconhecer. Diagnosticar. Tratar.” Estes são os três pilares fundamentais em que assenta o trabalho da EMHA sobre a enxaqueca e a saúde da mulher, dirigido aos decisores políticos, aos sistemas de saúde e à sociedade civil para avançar no reconhecimento da enxaqueca menstrual como uma questão de saúde da mulher; diagnosticar precocemente, reduzindo o tempo de espera e melhorando o percurso nos cuidados de saúde; e tratar melhor, promovendo um atendimento mais personalizado ao longo dos diferentes ciclos hormonais da vida.
No que respeita a este último pilar, Elena Ruiz de la Torre sublinha que “não basta reagir à crise; na enxaqueca, é preciso antecipar. Precisamos de passar de uma abordagem reativa para uma mais proativa e individualizada, iniciada precocemente com tratamentos eficazes e bem tolerados, para reduzir a incapacidade e retardar a progressão da doença”.
Olhando para os próximos passos, a EMHA defende que a enxaqueca seja incluída no centro da futura Estratégia Europeia de Saúde Neurológica, em linha com as Estratégias Europeias de Saúde da Mulher. Este reconhecimento deve traduzir-se em avanços verificáveis, como menor desigualdade no acesso ao tratamento, percursos de cuidados mais eficientes e um aumento da consciencialização para reduzir o estigma e acelerar o diagnóstico.
Crédito imagem: Unsplash















