As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte entre adultos de meia idade em todo o mundo. Mas nos países com maiores rendimentos, as mortes por cancro tornaram-se duas vezes mais frequentes que aquelas associadas às doenças cardiovasculares.

A garantia é dada pelo primeiro grande estudo internacional que documenta a frequência de doenças comuns e as taxas de mortalidade em geografias onde a riqueza é mais alta, média e baixa, através de uma abordagem padronizada.

Publicado na revista The Lancet e apresentada no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, o trabalho envolveu dados de mais de 162.500 adultos com idades entre os 35 e os 70 anos, de 21 países, seguidos por uma mediana de 9,5 anos.

“O facto de as mortes por cancro serem agora duas vezes mais frequentes que as mortes por doenças cardiovasculares nos países de elevados rendimentos indica uma transição nas causas predominantes de morte na meia-idade”, refere em comunicado Salim Yusuf, investigador principal do estudo e professor de medicina na McMaster University.

“Como os casos de doenças cardiovasculares diminuíram em muitos países na sequência da prevenção e tratamento, é provável que a mortalidade por cancro se venha a tornar a principal causa de morte globalmente.”

“A elevada mortalidade nos países mais pobres não se deve a uma carga maior de fatores de risco, mas provavelmente a outros fatores, incluindo baixa qualidade e menor assistência médica”, acrescenta o especialista.

Mortalidade por doenças cardiovasculares mais alta

Foram 21 os países envolvidos no estudo (Canadá, Arábia Saudita, Suécia e Emirados Árabes Unidos, Argentina, Brasil, Chile, China, Colômbia, Irão, Malásia, Palestina, Filipinas, Polónia, Turquia e África do Sul, Bangladesh, Índia, Paquistão, Tanzânia e Zimbábue), mas segundo Salim Yusuf, os resultados do estudo serão provavelmente aplicáveis ​​a outros países com características económicas e sociais e cuidados de saúde semelhantes.

No geral, e isto para todas as causas de morte com exceção do cancro, a mortalidade por 1.000 pessoas/ano foi mais baixa nos países de rendimentos mais altos (3,4%), intermédia nos de rendimento médio (6,9%) e mais alta nos mais pobres (13,3%).

Em relação às mortes, as doenças cardiovasculares foram a causa mais comum em geral, com 40%, mas com variações: nas nações mais ricas, a percentagem ficou-se pelos 23%, chegando aos 43% nos mais pobres, embora os fatores de risco para doenças cardiovasculares fossem mais altos no primeiros.

O cancro foi a segunda causa de morte mais frequente, com 26% das mortes, mas essa proporção variou e foi responsável por 55% das mortes no países mais ricos e de 15% nos mais pobres.

Prevenção reforçada para o cancro

O estudo conclui ainda que os países mais pobres apresentam uma maior proporção de mortes e hospitalizações por doenças não transmissíveis, em comparação com as doenças infecciosas e que, nestas nações, existe uma associação inversa entre os cuidados hospitalares e os medicamentos efetivos versus os óbitos, o que sugere que cuidados de saúde de menor qualidade podem ser responsáveis, pelo menos em parte, pela maior mortalidade nos países mais pobres.

“Daqui se percebe que, ao mesmo tempo que os países mais ricos devem manter esforços contínuos para prevenir e tratar as doenças cardiovasculares, são precisos novos esforços para reduzir o cancro”, refere Darryl Leong, coautor principal do estudo.