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Uma em cada 5 pessoas com demência não recebe cuidados, mostra estudo global

cuidado das pessoas com demência

Um novo estudo, liderado por investigadores da Escola de Saúde Pública de Yale, descobriu que pelo menos uma em cada cinco pessoas que vivem com demência não recebe qualquer cuidado que as ajude nas atividades diárias, independentemente da riqueza ou do estado de desenvolvimento do seu país.

“Esta não é apenas uma questão de assistência; é uma crise de saúde pública”, afirma Xi Chen, professor associado de saúde pública e autor sénior do artigo. “Sabemos que a falta de cuidados básicos aumenta o risco de visitas às urgências, admissões em lares de idosos, depressão e até morte precoce. Esta ausência generalizada de cuidados está a colocar uma pressão tremenda sobre as famílias, as comunidades e os sistemas de saúde.”

O estudo analisou dados de mais de 10.000 indivíduos nos Estados Unidos, Inglaterra, 18 países europeus, Israel e China, naquela que é, segundo os especialistas, a investigação transnacional mais abrangente até à data sobre as experiências de cuidados das pessoas que vivem com demência.

Os participantes eram adultos com 50 anos ou mais, residentes na comunidade e que foram identificados como tendo demência, tendo enfrentado pelo menos uma limitação nas atividades básicas ou instrumentais da vida diária, como tomar banho, vestir-se, preparar refeições, pagar contas e administrar a medicação.

Os investigadores descobriram que aproximadamente 20% dos indivíduos que vivem com demência praticamente não recebem cuidados no seu dia-a-dia, independentemente de viverem num país rico, de rendimentos médios ou baixos ou da abordagem cultural do seu país no que diz respeito aos cuidados de saúde. Não houve evidência de que o fosso global de cuidados tenha diminuído entre 2012 e 2018, período abrangido pelo estudo.

“Ficámos surpreendidos com a consistência das descobertas entre os países”, afirma Chen. “Por mais desenvolvido que seja um país, o défice de assistência persiste ao longo do tempo, pelo menos nos últimos 10 anos.”

O que faz falta

Este trabalho destacou lacunas significativas ao nível da prestação de cuidados formais, como serviços profissionais ou remunerados prestados em casa ou em lares de idosos, mas também de apoios informais, ou seja, prestados por familiares ou amigos.

Na China, quase 99% dos idosos com demência e limitações diárias relataram não receber quaisquer cuidados formais; nos EUA, 86% não têm apoio formal e até mesmo na Europa e em Inglaterra, onde os sistemas de assistência social estão mais desenvolvidos, mais de 70% dos participantes vivem sem assistência formal.

Embora um pouco mais comum, o cuidado informal também é insuficiente: cerca de um em cada quatro indivíduos com demência relatou não receber qualquer cuidado informal, de acordo com o estudo, que observou ainda grandes disparidades com base no estatuto socioeconómico: os indivíduos com níveis de educação mais baixos tinham uma probabilidade significativamente maior de ficar sem assistência formal, e os indivíduos que viviam sozinhos tinham frequentemente pouco ou nenhum apoio informal, o que os deixava especialmente vulneráveis.

As descobertas surgem numa altura em que os países de todo o mundo se adaptam ao rápido crescimento da população com 65 anos ou mais, assim como de pessoas com demência – em 2022, mais de 55 milhões viviam, no mundo, com este problema, estimando-se que o número aumente para 139 milhões até 2050.

Eliminar as lacunas no tratamento da demência

Abordar as lacunas no tratamento da demência exige uma abordagem multifacetada, afirma Chen. É necessário um investimento financeiro significativo para melhorar o acesso aos cuidados, aumentar a equipa de cuidadores profissionais e prestar um maior apoio aos cuidadores informais em todo o mundo. Compreender as nuances culturais e as características demográficas regionais e familiares é também fundamental no desenvolvimento de soluções, reforça.

Pede, por isso, aos decisores políticos que priorizem modelos de cuidados eficazes e específicos para indivíduos com demência. “Para colmatar estas lacunas de assistência, precisamos de mudanças políticas transformadoras, de mais financiamento para a assistência formal e de um melhor apoio aos cuidadores informais”, reforça Chen. “Sem ação, o fardo para as famílias e as consequências para os idosos só vão piorar.”

 

Crédito imagem: iStock

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