A infeção causada pelo novo coronavírus funciona, em muitos casos, como uma roleta-russa: para alguns, o desfecho chega de forma rápida, sem grandes sequelas; para outros, pode mesmo acabar em morte. Tentar perceber o porquê desta disparidade e prever quem fica mais e menos doente tem sido o objetivo de vários estudos, um dos quais realizados pela 23andMe, uma empresa de genética norte-americana, que parece agora ter encontrado um fator que o justifica e que se encontra nos genes.

De acordo com o estudo, cuja informação foi publicada no site SingularityHub, as pessoas com o tipo de sangue O, algo que é determinado por um gene chamado ABO, têm menos probabilidade de um teste positivo para a Covid-19.

Mas há mais: outra parte do genoma, onde se encontram muitos dos genes relacionados com o sistema imunitário, pode ter a resposta para o facto de algumas pessoas acabarem ligadas aos ventiladores, enquanto outras mal tossem.

Em apenas um ano, o estudo reuniu mais de um milhão de pessoas em busca de pistas genéticas e, com a ajuda da análise de ‘big data’, ou estudos de associação do genoma, procurou as partes das nossas cadeias de ADN associadas a esta doença específica.

Ou seja, um gene pode ter alterações únicas, com consequências como a mudança na cor dos olhos, o tipo de sangue, a probabilidade de ter Alzheimer ou autismo ou até a forma como a pessoa se defende de uma infeção viral. E foram estas alterações subtis, as chamadas SNPs (polimorfismos de nucleotídeo único), que a 23andMe procurou.

Ao todo, cerca de 1,05 milhões de clientes da 23andMe responderam ao estudo, com mais de 15.000 pessoas a relatar um diagnóstico de Covid-19 e 1.100 hospitalizadas com a doença. O último grupo foi adicionado especificamente ao estudo para garantir que o mesmo cobria todo o espectro de respostas associadas à Covid-19, mais ligeiras e mais graves.

O impacto dos genes na infeção

Os investigadores queriam saber se as variantes genéticas podiam mudar a facilidade com que uma pessoa se infeta com Covid-19 e a gravidade com que a doença progride.

Um elo especialmente forte apareceu: o gene que determina o tipo de sangue de uma pessoa. A análise mostrou que o gene ABO está fortemente associado à possibilidade de alguém ter um teste negativo para a Covid-19.

O tipo sanguíneo de uma pessoa é determinado por variações num único gene e, segundo a equipa, o tipo de sangue O tinha menos probabilidade de testar positivo, o que sugere, ainda que não prove, que este tipo de sangue poderia proteger mais da doença.

A descoberta da 23andMe confirmou um trabalho anterior que sugeria uma vulnerabilidade do tipo sanguíneo à doença. Em junho de 2020, Tom Hemming Karlsen, do Hospital Universitário de Oslo, tinha encontrado também um efeito protetor associado aos tipos de sangue O, mas com uma amostra muito menor, e apenas com pessoas de Itália e Espanha.

O estudo identificou também um conjunto de genes no cromossoma 3 que se relaciona com a gravidade da Covid-19, ou seja, que torna mais provável que uma pessoa seja internada ou tenha problemas respiratórios. Vários dos genes nesta localização estão relacionados com o sistema imunitário.